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Pequenos nadas

2 – Os arrumadores, ou o primado da “moedinha”

N/D
6 Nov 2004

Todos nós, os que conduzimos automóveis nesta cidade de Braga, já fomos alguma vez importunados por alguém que integra esse fenómeno recente, que é o de pessoas (jovens, menos jovens, ou de idade indefinida) a pretenderem ajudar-nos a estacionar (arrumar) o carro, solicitando, em contrapartida, por essa desnecessária colaboração, a inevitável “moedinha”.
“Moedinha” que, diga-se, não deve ser inferior a um euro, sob pena de sermos alvejados com impropérios ou algo bem mais desagradável.

O problema é grave e de difícil solução.

Sabemos que nalgumas cidades já procuraram solucioná-lo através de medidas de integração social.

Ao que parece, porém, tais tentativas resultaram infrutíferas.

A propósito, num dos recentes fins de semana, numa rua da cidade, nas proximidades do Hospital de S. Marcos, a percentagem de arrumadores era de um para oito carros.
Veja-se a concorrência a que isso corresponde.

Mas o curioso é que entre eles – arrumadores – existe uma razoável solidariedade, sendo frequente vê-los a auxiliarem-se mutuamente, emprestando uns aos outros as necessárias “moedinhas” que lhes faltam para atingirem determinado objectivo.

Complicado é quando a oferta é pouca e a discussão muita, então, entre eles. Nessas ocasiões, que infelizmente são frequentes, ocorrem confrontos físicos e verbais que incomodam moradores e transeuntes, chegando, por vezes, à agressão à pedrada que deixa marcas bem visíveis nos carros, persianas, etc. da zona.

Mas que objectivo é esse que atrás referimos?

O autor destas linhas, que é um apreciador de pequenos nadas, já se apercebeu que em Braga, por regra, os ditos arrumadores, se perguntados do destino da “moedinha”, dizem que é para ajudar familiares idosos e (ou) doentes.

Já no Porto, é vulgar pedirem um montante concreto de “moedinhas”, exactamente a que lhes falta para a indispensável “dose”. Em Lisboa, finalmente, tal não é sequer necessário, já que o estado habitual de “ressaca” com que se apresentam, mostra inequivocamente o destino da dita “moedinha”.

Curiosa é a relação que se estabelece entre o arrumador e aquele que busca um lugar para estacionar. Umas vezes existe temor ou receio, outras vezes surgem diálogos interessantíssimos e quase surrealistas.

Eis alguns exemplos de diálogos que por vezes se estabelecem entre arrumadores e condutores que procuram lugar para estacionar, os quais óbvia e naturalmente, serão portadores de carta de condução:

a) Local onde o estacionamento é proibido por sinalética específica e, também, por traços amarelos pintados no chão. Pergunta o condutor de um veículo que faz publicidade a um conhecido jornal diário: “posso estacionar aqui?”; responde o “arrumador”: “à minha responsabilidade, estou aqui há muito tempo e nunca um condutor foi multado neste local”.

Lá fica o carro estacionado, e passado algum tempo surge a autoridade que naturalmente autua o infractor pela contravenção praticada.

b) Local onde recentemente foram colocados parcómetros. Pergunta o condutor, sem previamente ver que os carros já esta-cionados no local, são portadores do respectivo recibo: “é necessário tirar recibo?”; responde o “arrumador”: “Não senhor, a máquina ainda não está a funcionar”.

Lá fica o carro estacionado, e passado algum tempo lá surge a autoridade, que naturalmente autua o infractor pela contravenção praticada.

c) O diálogo de última hora. Pergunta a condutora: “aqui é a pagar?”. Responde o arrumador, após acesa discussão, com troca de palavras dignas das que hoje ouvimos entre as claques nos campos de futebol, com um colega que lhe disputava a zona: “não senhor, aqui mando eu!”. E lá ficou o carro “legalmente” estacionado.

O direito ao trabalho encontra-se consagrado no artigo 58.º da Constituição, que diz, além do mais, que para assegurar o direito ao trabalho, incumbe ao Estado promover: a execução de políticas de pleno emprego; a igualdade de oportunidades na escolha de profissão ou género de trabalho e condições para que não seja vedado ou limitado, em função do sexo, o acesso a quaisquer cargos, trabalho ou categorias profissionais; a formação cultural e técnica e a valorização profissional dos trabalhadores.

A labuta destes arrumadores não é exactamente o trabalho que a nossa Lei Fundamental consagra.

Será, talvez, um modo de vida ou de ocupação do tempo, de quem, sendo desempregado, o dirige à obtenção de proventos necessários à aquisição de determinadas dependências.

Naturalmente, não se encontram colectados e não beneficiam de assistência social, ou beneficiarão?

A questão que nos preocupa não é de fácil solução. Porém, a manter-se o estado actual, a si-tuação destes arrumadores é preocupante. Basta vê-los nas nossas ruas diariamente, para nos apercebermos do seu envelhecimento precoce e da sua degradação permanente.

Não será altura de procurar uma solução para esta terrível situação?

A Constituição aponta um caminho. Necessário é que haja empregos e vontade de trabalhar.




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