Fotografia:
A purga de Rocco Buttiglione

O afastamento de Rocco Buttiglione do corpo de futuros Comissários da União Europeia, vem confirmar que estamos perante uma situação gravíssima, caracterizada por um despudorado ataque às convicções pessoais de um cidadão europeu.

N/D
3 Nov 2004

Não é minha pretensão assumir a defesa pública de Buttiglione, nem me julgo capacitado para tal, mas apenas alertar para o que considero ser não só um claro atentado à liberdade de expressão e a distorção propositada do seu discurso mas, particularmente, a tentativa de imposição a todos os cidadãos europeus de um fundamentalismo laicista, por parte de alguns eurodeputados.

Vamos aos factos.

A comissão das Liberdades Civis do PE rejeitou a nomeação de Rocco Buttiglione para Comissário da Justiça, designado pelo Governo italiano. A votação foi de 27 votos contra e 26 a favor, tendo-se a esquerda e os liberais oposto à direita.

O alemão Martin Schulz Presidente do PSE, condenou a designação de Buttiglione para Comissário Europeu, «pelas suas afirmações homófobas e machistas», acrescentando que a sua nomeação «representaria um risco de retrocesso na política europeia (…)».

Outros eurodeputados teceram comentários semelhantes e aqui merece saliência o frenesim inquisitorial do francês Daniel Cohn-Bendit, acerca de quem José Manuel Fernandes, Director do «Público» escreveu, em post scriptum de um editorial, o seguinte:

«Um dos heróis da discussão parlamentar foi o mesmo que, na década de 70, quando trabalhava num infantário, descreveu assim algumas das suas experiências: “Às vezes acontecia que algumas crianças abriam a minha braguilha e começavam a acariciar-me.

(…) Se insistiam, também as acariciava. (…) As meninas de cinco anos tinham aprendido como excitar-me. É incrível.” Quando estas declarações antigas foram desenterradas pelos “media” falou-se de “caça às bruxas”, pois o seu autor é, “apenas”, o intocável Daniel Cohn-Bendit. Se, por acaso, fosse indicado para comissário do mesmo pelouro que Buttiglione, alguém imagina que se levantaria idêntica tempestade entre os deputados?»

Muitos europeus e americanos têm reagido com repulsa ao afastamento de Buttiglione, mas refiro apenas dois:

O «Corriere della Sera», jornal de maior tiragem em Itália, defende que as verdadeiras razões para o sucedido são outras: «A aversão sentida na Europa por Silvio Berlusconi, com uma certa militância católica e o apoio da Itália à política do Presidente norte-americano George W. Bush são os reais argumentos para o resultado da votação».

A edição europeia do «Wall Street Journal» do passado dia 13 de Outubro, aludindo ao caso Buttiglione, afirmou que «basta ler atentamente as transcrições da reunião da assembleia europeia para entender o extremismo laicista dos próprios acusadores do filósofo católico, rechaçado pelo Parlamento Europeu por presumida homofobia e extremismo».

O mesmo jornal acrescenta que o veto imposto pelos eurodeputados «discrimina o italiano politicamente, por razões de ideologia, consciência e crenças garantidas pela Convenção Europeia de Direitos Humanos», pedindo ao Parlamento Europeu que respeite as liberdades e os direitos fundamentais.

Afinal, quais foram as palavras exactas de Buttiglione no Parlamento Europeu?

Apesar de acusado de «atacar os direitos das mulheres», a feminista Victoria Uroz, relatou o seguinte:

«Rocco Buttiglione, eurodeputado italiano, amante das liberdades pes-soais e dos direitos das mulheres, foi sujeito a uma difamação e afastamento pessoal, por falsos juízos e por manipulação das suas palavras que foram retiradas do contexto». Durante o discurso de apresentação ao Parlamento Europeu, o político italiano disse as seguintes palavras textualmente:

«Muitas coisas que podem ser consideradas imorais, não deveriam ser proibidas. Em política, não renunciamos ao direito de ter convicções morais. Eu posso pensar que a homossexualidade é um pecado, mas isto não tem efeitos na política, a menos que dissesse que a homossexualidade é um delito. Todos os seres humanos devem desfrutar dos mesmos direitos, quer sejam homossexuais ou heterossexuais ou qualquer outra coisa. Estou comprometido com a defesa dos direitos de todos os cidadãos europeus, incluindo o direito à não discriminação. Se me disserem, por exemplo, que existe uma particular concentração de violência contra os homossexuais, então estou disposto a dar-lhes melhores garantias do seu direito à igualdade».

Buttiglione teve o cuidado de afirmar que as suas convicções pessoais não constituiriam obstáculo ao seu campo de acção; no entanto, a notícia difundida por inúmeros jornais, acusava-o de discriminação. Buttiglione foi condenado e censurado politicamente, facto inédito desde a constituição do Parlamento Europeu.

Além disso, difundiu-se também a notícia de que ele condena as mulheres e emite falsos juízos sobre elas; outra mentira. Voltemos às fontes e constatar o que ele disse acerca das cidadãs europeias:

– «Todos devemos reflectir sobre as condições de vida das mulheres; provavelmente pedimos-lhes demasiado, sem lhes darmos o apoio adequado.», continuando a seguir: «As mulheres estão hoje sobrecarregadas e necessitamos de desenvolver uma política que permita às mulheres serem mães e, além disso, desenvolverem os seus próprios talentos profissionais. Precisamos de uma política favorável a estas questões, porque o mercado não confere tais possibilidades à população feminina».

Victoria Uroz, assumindo-se feminista refere o seguinte: «Vejo-me muito mais representada por este discurso do que por qualquer outro (…). Quero que o Senhor Buttiglione seja o Comissário Europeu que defenda os meus direitos como mulher e os direitos daquelas que sofrem pressões sociais e laborais como eu, para que possa exercer o meu direito à maternidade.»

Vamos ao núcleo do assunto: o que se afasta, é a realidade de o Senhor Buttiglione ser um católico praticante e coerente e, a isto chama-se intolerância, fundamentalismo e anti-democracia. Este afastamento, baseado na orientação moral do candidato ao colégio de comissários europeus estabelece um precedente muito perigoso para suprimir a liberdade de pensamento, consciência, religião e expressão, apesar de estes aspectos estarem consignados nos artigos 9, 10 e 14 da Convenção Europeia dos Direitos Humanos.

O que ocorre na Europa? Começou uma caçada aos católicos?




Notícias relacionadas


Scroll Up