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803. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Braga:

E agora? O que vai ser do café Astória – a única jóia restante da cultura académica da cidade? Será que os tortuosos caminhos que levaram à extinção do café Avenida são os mesmos que o norteiam?

N/D
3 Nov 2004

Diz-se por aí, à mesa do café e às esquinas da Arcada, que o velho Astória nunca mais será o que era! Coisas naturais do destino ou destino natural das coisas ?
Palco, ao longo de muitas décadas, do lazer e estúrdia académicos e encontro de gerações, o Astória marcou nos anais da cidade uma presença activa e viva que parece os sinais dos tempos quererem agora destruir!

Quem não se lembra das capas negras, das guitarradas, das noites de boémia estudantis que, mormente, nas épocas de cinquenta e sessenta, ele albergou? O senhor Presidente, como eu, pois somos, sensivelmente, da mesma geração, só podemos, hoje, ter nele o velo da saudade e o gume da lembrança a acicatar-nos!

(E, entre parêntesis, para aquilatarmos do peso referencial dos cafés no quotidiano vivencial das pessoas, lembro-me, frequentemente, de um bom amigo que, ausente de Braga desde os tempos de estudante, quando cá voltava na Quaresma para a desobriga, ia, como um ferrinho, ao café Avenida, de saudosa memória, porque sabia que aí encontrava sempre alguém dos seu tempo para pôr a escrita em dia!)

E, por isso, cada manhã e cada tarde, se vê, por ali, mesmo já com o Astória fechado, a brigada do reumático, quase toda dele apaixonada, a bater um papo, a acender lembranças, a curtir delongas da reforma! E o senhor Presidente sabe bem do que falo, porque muitas tardes ali também o vi, à sombra do guarda-sol ou das arcadas, numa mesa de amigos ou correligionários, em sereno circunlóquio.

Não sei se se lembra, ainda, mas quando o Astória iniciou a etapa que agora finda, temeram os seus habituais clientes, dada a renovação a que foi sujeito, não poder mais frequentá-lo, sobretudo, pelos preços que nele viessem a ser praticados. Ora, todavia, tal não aconteceu, porque, embora durante a noite desenvolvesse programas de animação para gente jovem, durante o dia manteve as suas características de sempre, continuando a acolher a velha clientela.

Agora, dizem-me que o novo senhor do Astória – um estrangeirado, obviamente, alheio à cultura de Braga e suas gentes – é o empresário dos famosos Amo-te, Chiado, Amo-te, Meco… Será que vamos ter um Amo-te, Astória?

Seria bonito! Só que estes projectos, normalmente, não se compadecem com frequentadores com pouco poder de compra, ademais reformados, e depressa os riscam do mapa! E muito menos são sensíveis às memórias e história culturais dos espaços que exploram!

Temo que os velhos clientes do Astória tenham que buscar outro local de lazer, cavaqueio e tertúlia. E, tristemente, acabem por enterrar com o fim deste café, os retalhos de passado e de vida que nele granjearam!

A não ser, senhor Presidente, que a Câmara Municipal se tenha preocupado com isso e exija no contrato de exploração uma cláusula que contemple o respeito pela história humana do Astória!

E não é exigir muito, pois é elementar dever de qualquer Autarquia ter um papel vigilante e activo na forma como estes cartazes turísticos, estes cadinhos de memórias individuais e colectivos são tratados! E, concretamente, no caso do emblemático café Astória!

Porque uma cidade não é só calhaus, arvoredo e alcatrão! Cada cidade tem uma alma que se alimenta, igualmente, de um quotidia-no feito de vida e história dos seus cafés e locais de tertúlia. Daí que o café Astória tenha que ser preservado na sua idiossincrasia!

Depois, quem sabe, pode ser este o trigésimo segundo passo na caminhada da sonhada candidatura de Braga a capital nacional (primeiro) e europeia (depois) da cultura!

Tijolo a tijolo se levanta a construção!

Com os melhores cumprimentos e até de hoje a oito!




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