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Vitória de fracos… ou de fortes?

Aonde um homem sempre chegou, veio também o tormento. Uma situação de perfeição, é para nós inatingível… (Theodor Fontane)

N/D
2 Nov 2004

Com tanta lamúria económica, social e política, podemos interrogar-nos: onde estão os entusiasmos do Euro 2004? Foi sol de pouca dura, ou ópio, como droga de alienados?!…

Onde está o nacionalismo tersado nessas “catedrais” de sonâmbulos e alienados?!

Voltamos ao tempo real, nós que gostámos sempre de viver fora do tempo, ou de ser imbecilizados com presentes de bandeja, sem esforço e trabalho conseguidos.

As grandes vitórias são sempre dolorosas e exigem muitas renúncias…

Quando vemos países ricos em crise, com tantas empresas a fechar e ameaçando os operários, com aumento e suplemento de horas de trabalho, com redução de salários, não seria motivo para sermos mais prudentes, laboriosos, inventivos, ou até competitivos?

Quanto a cultura, bastará a multiplicação de escolas, por vezes mais preocupados em empregar professores do que em servir as populações? Não seria de fazer uma educação de base, onde concomitante se atingisse também os pais e os mais deserdados da Cultura?

Valerá a pena construir escolas para meios já mais evoluídos, quando se esquecem outros mais necessitados, de formação de base, e até profissional?

Há regiões apostadas em conservar reservas ecológicas para exportar mais tarde emigrantes, ou para fazer deles “burros de carga” de certas camadas sociais, nem que sejam vendidos no mercado internacional? Não se verifica, por vezes, um discurso que mais compromete, do que alivia ou liberta, pela forma como é veiculado?

Certo tipo de afirmações imaturas, de forte carga emotiva, ideológica e política, esquece a situação real, como as limitações que temos, e tiram por vezes as ambições dos mais ousados e trabalhadores, que até pensam, comparam e sofrem, por verem que continuamos atascados e de horizontes muito limitados. O mundo de hoje precisa de sonhadores, homens arrojados, com visões abertas e transformadoras, que ponham os outros a sonhar também, não a delirar…

Há dias, numa reportagem sobre o Brasil, nas favelas de S. Paulo – uma cidade com 18 milhões de habitantes – a maior percentagem de mães solteiras, num meio da prostituição, com filhos nos braços, e outras crianças da rua a jogar com bolas de trapos, algumas cheias de fome, que iam a Igreja, como oásis, onde recebiam víveres para aliviar a fome, no meio de cânticos de entusiasmo e fervores religiosos, as mães alimentavam ainda o sonho de os filhos poderem ser mais felizes do que elas, indo à escola e poderem um dia viajar pela Europa…Era assim que se apresentava o velho continente às crianças, talvez no sonho de um dia virem a ser jogadores… ou até missionários.

Quem lhes incutiu esse modelo? Quem os fez assim mesmo tão débeis ou tão fortes?

Serão resquícios ainda de uma colonização mal assumida pelos portugueses com as imagens e heróis que lhes fornecemos?

Quando vejo certos modelos do meu país, os critérios, que nos orientam ou somos orientados, confrange-me de dor quanto ao futuro. Eu sei que o desporto é necessário, mas para fazer um corpo são ou bestial? Uma escola de saúde ou um desperdício? Uma futelândia, tourada, ou uma escola de virtudes, levando-nos à compreensão nas derrotas, na luta, ao sacrifício, que vai edolcurar uma vitória? Mas quem educa esse invisível, que nos cerca por todo o lado, embora com um horizontal que o marginaliza, ou na palavra, como aviso do insondável?…”

(Vergílio Ferreira)

Mesmo assim precisa-se de muito esforço, renúncia, treino mental e higiénico, pois na vida nada é fácil e só se consegue com muito trabalho, empenho e afinco.

Prepararemos assim as grandes vitórias do amanhã noutros domínios? Ou limitamo-nos a ver a banda a passar, ainda que cheios do nosso amor próprio e dos mitos, que vemos de cada vez mais esfumados? É obra!…




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