Fotografia:
A doença da metrópole

Passando pelo interior das terras da Beira Alta, numa aldeia ensolarada chamada S. Paio, já perto de Gouveia, deparei com uma placa de mármore, na parede de uma pequena casa bem caiada, onde há um poema que tem por título A MINHA ALDEIA.

N/D
2 Nov 2004

Deve ser de alguém que teve de emigrar (dizem que vinham muito para Lisboa) e depois regressou, para deixar escrito em mármore este belo testemunho de saudade da terra que o viu nascer. Parei para admirar este significativo depoimento de saudade (por trás da emigração há dramas que nem sempre se contam…), feito com ternura e espontaneidade:

Ó minha querida aldeia
Princesa da serrania!
Nunca me saiu da ideia
Nesta minha aldeia que anseia
Tornar a ver-te algum dia.

Tenho saudades do outeiro,
Da Senhora da Saúde,
Do Bairro do Coucinheiro,
Tão alegre e prazenteiro
E tão cheio de virtude.

Tenho saudades dos montes,
Dos rebanhos, dos pastores,
Do matiz dos horizontes,
Da água pura das fontes
As fontes dos meus amores.

Saudades das procissões
Mai-la “Euterpe Sociedade”…
Das vindimas, das canções,
Da lareira, dos serões
E da minha mocidade.

Saudades das desfolhadas
De espigas de milho-rei…
Moças de faces rosadas,
De velhinhas corcovadas
Chorando quando abalei.

Da casinha onde nasci
Tenho saudades sem fim;
Do telhado fumegando
E de minha Mãe chorando
Saudades que tem de mim.

No início dos anos 70, era muito frequente ouvir-se, nos jardins públicos de Lisboa, a célebre canção do brasileiro Nelson Nede “O QUE É QUE VOCÊ VAI FAZER, DOMINGO À TARDE?”. Era também muito passada nos Quartéis militares para ajudar os novos recrutas a não se sentirem tão isolados. Quando não havia trabalho, que é que se havia de fazer? As pessoas que tinham vindo para Lisboa encontravam-se, aos grupos, em locais certos.

O elemento de afinidade e coesão dos grupos era a proveniência da terra natal. Ali conversavam uns com os outros, falavam das suas experiências durante a semana, contavam notícias das suas terras e das suas famílias, iam beber uns copos. E despediam-se até para a semana. Nessa altura, a integração era mais difícil.

Cada um trazia os seus costumes, as suas tradições, as suas convicções e práticas religiosas e sociais. Assim se foram criando casas de encontro das várias zonas de origem do país: a Casa do Minho, a casa das Beiras, a Casa do Alentejo, etc. Era uma forma de se encontrarem, de conviverem, de se apoiarem mutuamente e de procurarem manter a sua identidade cultural.

Hoje, é tudo bastante diferente. As segundas gerações já se foram integrando mais e as terras de origem dos pais cada vez lhes dizem menos. E as Casas foram perdendo significado e interesse.

O resultado dessa integração foi uma manta cultural de retalhos, tendendo para uma anomia, uma generalidade sem rosto nem identidade, uma sociedade em que ninguém se conhece, onde cada um vive a sua vida, passa pelos outros como se os não visse, não se conhecem nem se importam de conhecer. Correm em bicha atrás dos transportes. Há mais solidariedade e entreajuda, em caso de emergência num bairro de moradias do que num bairro de prédios de habitação horizontal.

Não devia ser assim, porque as pessoas, nos prédios comuns, cruzam-se todos os dias ou na entrada, ou nas escadas ou nos corredores, mas cada um aprendeu a evitar meter-se no espaço de vida dos outros para evitar complicações. Vivem lado a lado, mas ignoram-se mutuamente. Cada um faz a vida que quer, as pessoas olham mas não vêem e, se vêem, nada dizem. É o anonimato no meio da multidão.

Foi-se operando uma perda de padrões e de normas sociais e familiares estáveis. Tudo se tornou indiferente. Há quem confunda esta indiferença com tolerância; mas não é bem isso, porque a tolerância é uma atitude consciente e activa que aceita as diferenças, mesmo que em consciência não prescinda das suas convicções. Aqui, é uma atitude passiva de indiferença já automatizada, deixa andar, não te metas na minha vida que eu também não me meto na tua.

Ora, é sabido que todo o indivíduo tem necessidade de relações estruturantes, de identificação com papéis e valores, de se encaixar num sistema significativo para ele e para a comunidade. Mas é muito difícil esses valores e essa participação existirem neste tipo de sociedade.

Esta anomia, considerada uma das causas mais fundas do suicídio na cidade, é a doença característica das metrópoles. O indivíduo sente-se só, vive só, embora rodeado de pessoas. A estrutura e modelo familiar vai perdendo força e significado e as suas relações de estabilidade e permanência vão-se tornando cada vez mais frágeis.

As condições sociais de morada na periferia das cidades onde há os empregos exigem deslocações diárias morosas e cansativas, pelo que os pais passam o dia ausentes de casa e dos filhos. E estes crescem como filhos da solidão. Lá bem no fundo da sua vida íntima pouco encontram que lhes dê segurança e afecto.

Admiram-se que para muitos jovens a droga adquira um significado de fuga do tédio de si mesmos?

Ao que se diz, a droga começa a ser procurada e consumida cada vez mais cedo. Claro que nem com toda a gente assim acontece. Mal de nós se o quadro fosse assim tão generalizado e negro. Mas, a verdade é que, apesar de todos os rios de dinheiro que se gastam hoje com o flagelo da droga, na prevenção e cura, os números não baixam e ninguém conseguiu ainda estancar-lhe a seiva das razões da sua existência nem tomar medidas estruturais para isso.

Nas cidades-subúrbio da metrópole, a maioria vai-se integrando nesta amálgama cultural sem identidade que lhe é típica; outros vão mantendo algumas das regras estruturantes das suas terras de origem e a Igreja desempenha aí também um papel de coesão importante; muitos sentem-se desenraizados e à deriva e são vítimas fáceis das novas religiões que lhes prometem milagres e felicidade a troco de encenações delirantes em grupo e dos dízimos e fartas colectas em cada sessão; outros encontram nas multidões e paixões (tantas vezes infantis) do futebol (e dos jornais que exploram essas carências pessoais) a sua forma de preencher o vazio social afectivo de pertença e até passam a chamar novas catedrais aos estádios de futebol;

outros procuram nos partidos um apoio e de encontro a ver se podem arranjar melhor emprego ou ter uns dias de fama e poder (e aí, quanto mais frágeis de personalidade mais se sentem atraídos pelos partidos mais rígidos, que os instrumentalizam como carneiros no rebanho partidário onde obedecer lhes faz sentir força colectiva e estão contra tudo aquilo em dantes acreditavam porque sentem que de nada lhes valeu no imediato); outros, mas poucos, já com melhor condição financeira, regressam à sua terra de origem para aí poderem viver sossegados e apoiados nos valores que deram significado à sua vida.

Aliás, há hoje um fenómeno curioso de retorno: enquanto as aldeias e o interior se esvaziam e os seus habitantes partem para a cidade em busca de emprego e subsistência, os da cidade que já dispõem de capacidade económica vêm comprar as suas casas e quintas abandonadas para aí poderem descansar nos fins de semana.

É o regresso à natureza, onde o seu verde vivo e o silêncio repousante funcionam como apelo de retorno para o homem cansado do artificialismo e do stress da cidade.




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