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O sagrado e o profano

Um símbolo dirige-se ao ser humano integral e não apenas à sua inteligência. É graças aos símbolos que o Mundo se torna “transparente”, susceptível de mostrar a transcendência» (Mircea Eliade)

N/D
1 Nov 2004

Qualquer declaração contrária aos homossexuais ou à legitimação do aborto ou à legalização das uniões de facto não é, hoje, politicamente correcta e desclassifica o seu autor. Veja-se o caso do indigitado comissário europeu Buttiglione, que, por ser católico, se vê recusado pelo parlamento de Bruxelas. Mas escrever um livro policial a denegrir a Igreja e a pôr em dúvida a fé cristã, isso pode até trazer ao seu autor largos benefícios e grande notoriedade. É o caso do best-seller O Código Da Vinci.
Não se espera encontrar numa novela argumentos fundamentados que possam tomar-se como verdade histórica. Por isso, revestir factos reais com especulações fantasiosas e misturá-las com erudição e filosofia pode ser uma grande habilidade literária; mas, como todas as habilidades, pode tornar-se uma forma de desonestidade intelectual. Distorcer deliberadamente os factos, escamotear outros, deduzir de premissas falsas conclusões erróneas, e insistir nelas para convencer o leitor menos prevenido pode lograr certa verosimilhança, mas tem efeitos perversos.

Trata-se, na novela de Dan Brown, do assassinato do conservador do Museu do Louvre. Sabedor que era de um segredo guardado há séculos deixa pistas para que tal segredo continue a ser guardado por sua neta. O segredo é que Jesus Cristo seria casado com Maria Madalena. Os descendentes deste casal, que ainda hoje existiriam, são protegidos por uma sociedade secreta a que pertencia o conservador assassinado e a que pertencera também, além de outros, Leonardo da Vinci.

E a “Última Ceia”, daquele pintor do Renascimento, é esclarecedora: a figura à direita de Cristo não é o apóstolo São João mas a própria Maria Madalena; e não se vê qualquer cálice no fresco do mosteiro de Santa Maria das Graças; o verdadeiro Graal não é, pois, um cálice mas o próprio ventre fecundado de Maria Madalena. A Igreja sempre teria ocultado este segredo, mas há que continuar a procurar os restos mortais de Maria Madalena, que são, afinal, o fundamento da fé cristã, segundo o autor!!!

Com esta grosseira intrigalhada policiesca dessacralizam-se as categorias da linguagem do homo religiosus – os símbolos, os ritos – profanando-os no ocultismo onírico e na ficção de factos desonestamente interpretados. Quanto à qualidade literária, a frase tosca e o diálogo sem naturalidade juntam-se a erros históricos e geográficos já denunciados por especialistas na matéria.

A escritora Cyntia Grenier recomenda: «Alguém devia dar a este senhor umas aulas básicas sobre a história do Cristianismo e um mapa»; e ironiza: «Debaixo da enorme pirâmide do pátio do Louvre – construída nos nossos dias – encontram-se os ossos da mulher de Jesus». Um estilo espantosamente banal faz do livro da Dan Brown um verdadeiro fiasco, que, todavia, paradoxalmente (ou talvez não), se transformou num êxito editorial.

No Líbano foi proibida a sua venda e editoras houve que recusaram publicá-lo; mas há trinta milhões de exemplares espalhados por toda a parte em edições sucessivas; e prepara-se um filme.
Afinal, o livro de Dan Brown teve um outro efeito a benefício dos editores. A par de obras que desmascaram esta mistificação – Cracking Da Vinci Code e The Da Vinci Deception, por exemplo – reeditam-se, para alimentar a curiosidade mórbida do público, títulos expressamente citados por Brown: A Revelação dos Templários, Maria Madalena e o Santo Graal, A Deusa dos Evangelhos, O Enigma Sagrado. Aí está: a morbidez vende.

Como dizia F. Casavela em “El País” (19.01.2004), «ao autor do Código Da Vinci pode-se perdoar tudo; o que não se pode perdoar é que a obra seja promovida, e não só pelos canais publicitários convencionais, como produto de valor». É notório o paralelismo com o nosso “saramágico” e nobelizado evangelho.




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