Fotografia:
O tocador de flauta

Estava um homem deitado no chão; dormia ou estava drogado? E porque não doente? Na via pública os transeuntes passavam indiferentes, alguns desviavam-se das cercanias com repulsa ou repugnância. Não fosse aquilo pegar-se.

N/D
29 Out 2004

Peste de gente, resmungou uma mulher que foi rezar à Sé. A flauta que lhe servia na mendicidade disfarçada de tons e canções, rolara uns centímetros mais além; como o seu dono, jazia sem préstimo na laje dura e fria. Não era serventia. Nem o exíguo cartão prensado que fora leito sobrara para ela.

Os que passavam, passavam depressa e desviavam a vista. Nem a curiosidade, que é um elástico débil, prende num segundo o que solta no segundo seguinte, os retinha.

Nem uma mão, nem uma palavra para perguntar se estava bem, nem um olhar de compaixão, que é remédio da graça dos corações, desceu das alturas dos egoísmos para colocar sob a cabeça dorida do pobre tocador de flauta, uma palavra de consolo ou de alento. O mundo é sempre surdo à dor. Tantos levitas, nenhum samaritano!

Na época dos telemóveis ninguém quis gastar uns cêntimos para chamar o socorro duma ambulância. Estavam ocupados com os negócios. Nada. Apenas aquela insensibilidade do passo que se apressa na labuta de cada dia como se aquele homem, assim jogado ao abandono, não tivesse pressa de ser considerado um irmão; quem sabe se a pedir a todos nós, em gritos abafados de amargura, sei lá se no vómito do próprio nojo, um pequeno pingo de doçura, se é que ela ainda existe em todos nós que somos cristãos, humanistas e solidários. Solidários? Maldigo as palavras que soam a fariseus.

Julgo que se o homem da flauta tivesse um cão, este lhe lamberia o rosto lívido. Tudo naquele homem pressupõe restos do que foi uma fartura, quando, com família, tinha dignidade. Rodeado de um lado pelas paredes da reitoria da universidade, pelo outro, pelas pedras seculares da Sé, dois monumentos, dois mundos e um homem só.

Inerte. Farrapo. Aquele homem, imagem dos sem abrigo que também vivem nas noites de Braga, era uma bofetada e uma amostra visível do que se passa nesse mundo da indigência. O grito do silêncio. Noite a cair e com ela o frio e a humidade como companheiras das horas mortas. Companheiras sem companhia.

É bem mais consolador olhar para o lado, fingir que eles não existem, observá-los na sua desgraça e dizer que talvez com uns seminários, uns colóquios e uns discursos se abafe, por momentos, a nossa consciência. Abafar talvez, calar é que não.




Notícias relacionadas


Scroll Up