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Na casa do bom Papa João XXIII…

Teve esse Papa o condão de convocar à unidade pelo concílio os cristãos, unindo-nos mais pelo essencial, desculpando ou separando o que os divide no acidental ou mais humano, quer das estruturas ou instituições, quer das polivalências desfocadas, que mais humilham e tornam desumanos os homens

N/D
29 Out 2004

Nos vestígios dos grandes homens, à busca do seu seu rastro e estro, aprendendo os seus valores, descobrimos o segredo para as grandes causas, como o estímulo do que devemos perfilar mesmo no contra-corrente. Saber pois os segredos e escaninhos de uma vida, das opcões e forças do seu estímulo, como esquadrinhar o húmus das suas origens, será a melhor forma de explicar o seu comportamento, a grandeza dos seus ideais reflectidos no espelho da sua alma.
Uma figura que, entre todas na Igreja, nos empolgou, foi sem dúvida a do Papa João XXIII. Conhecido pela sua bondade e bonomia, o homem, que apoiou uma greve de agricultores, ainda jovem sacerdote, do ecumenismo e diálogo aberto, num tempo cheio de tensões, do sorriso franco… e mais preocupado com o pó acumulado de séculos do que a reconversão de estruturas, foi alguém que, nas suas atitudes e gestos, fez despertar a humanidade para valores muito altos de compreensão e diálogo entre cristãos e não cristãos, marxistas, teístas, ateus ou agnósticos, despertando-os para a harmonia e simbiose de visões, que devem unir os homens, mesmo na consciência das suas fraquezas, dispostos a ouvir os «rumores e murmúrios» de Deus, por entre as deficiências humanas, como sombra na vida de todos.

Teve esse Papa o condão de convocar à unidade pelo concílio os cristãos, unindo-nos mais pelo essencial, desculpando ou separando o que os divide no acidental ou mais humano, quer das estruturas ou instituições, quer das polivalências desfocadas, que mais humilham e tornam desumanos os homens. Este João – cujo nome irradia Luz -, que ele descobriu no seio da sua família, na paróquia e na Sagrada Escritura, seria sempre a projecção do húmus telúrico da sua aldeia, da bondade e simplicidade da sua família de remediados camponeses, como do leite materno que o alimentou na infância.

Sempre fiel aos seus, cioso da sua terra natal será este homem, que, com a sua bonomia, simplicidade e bom humor captará pela bondade o coração dos homens, a abrir janelas em “muros de forte argamassa”, como portas voltadas para um mundo, que, em diferentes concepções e vozes, procura a felicidade, por vezes através de caminhos opostos e de costas voltadas. Seria mesmo assim esta efígie paradigmática do Concílio Vaticano II, anunciado aliás com certa ingenuidade espontânea?

Estaríamos perante uma figura-relâmpago, que, profeticamente, vê a pos-modernidade em linguagens, paradoxos de visões e idiosincracias em disfunção, em conflito diante de ideologias e blocos extremos atiçados pelos homens? O que explica então o seu êxito e a visão profética deste mensageiro da paz, fraternidade, compreensão entre todos os homens, apesar de confissões e mundos diferentes?

Talvez uma visita à sua paróquia natal – Sotto il Monte – entre o lago Como (espaço de Promisi Sponsi) e Pérgamo, a 30 Km de Milão, capital do têxtil, dos curtumes e da moda… com uma catedral – filigrana do gótico lombardo flamejante, onde foi baptizado S. Agostinho por Santo Ambrósio – , explique o sortilégio de toda uma vida marcada pela simplicidade sem outras ambições, humor, riqueza de laços e valores familiares, como de tradições, que se guardam como pergaminho e se mostram não apenas em dias de festa.

Era assim Eugénio Roncalli: homem entre os homens, assumido no seu meio, elevado e honrado na sua terra, como potente holofote de luz, irradiação de um nome, que não tomou por empréstimo, mas assumiu em toda a profundidade na semântica e semiótica expressiva da sua vida.

Por isso uma visita à sua terra e casa de família – há um ano transformada em museu -, com retratos e quadros da sua vida na aldeia, ainda com os móveis originais do seu quarto, recantos e alfaias agrícolas de família, já com certo nível, como o espigueiro de abastados lavradores, etc. com entrada para o seminário internacional, ajuda-nos a compreender e perscrutar a bondade do homem, a riqueza do seu lar e coração, como o amor fraterno pela humanidade na sua bondade natura.

Incumbido em várias missões diplomáticas, desde a Bulgária, passando pela Turquia e Paris, cardeal de Milão, e depois Papa, vale a pena respigar uma carta, que escreveu aos seus pais, de Sofia, em 26 de Novembro de 1930, cujo original lá se encontra:
Meus queridos Pais, não quero terminar este dia, que é o primeiro dos meus 50 anos, sem uma palavra especial por vossemecês, a quem devo a minha vida.

Esta manhã, na minha oração, quis lembrá-los de um modo especial, e não posso deixar de agradecer ao Senhor nesta etapa a graça de ter vivido e gozado da vossa ajuda como bons pais, temente a Deus como vós e o ter-me conservado até agora em boa saúde e com fundada esperança de que vivereis por muitos anos. Demos graças à Providência e confiemo-nos a ela durante a vida como na morte. Este é o melhor modo de viver: confiar-se ao Senhor, conservar a paz do coração, olhar tudo pelo positivo, ter paciência e fazer bem a todos, nunca o mal.

Desde que saí de casa, há mais de dez anos, tenho lido muitos livros e aprendido muita coisa que não poderíeis ensinar-me. Mas aquele pouco que aprendi de vós, é ainda o mais precioso, importante e reconfortante, sobretudo é o que dá calor a muitas outras coisas que aprendi depois, quer nos anos de estudo, quer no ensino.

Desejo de todo o coração que toda a nossa família permaneça sempre fiel a esses ensinamentos e ao exemplo de velhinhos. Se com isto não se tornará muito rica em dinheiro, haja sempre esta riqueza de tesouros espirituais, que são a glória verdadeira de uma casa perante o mundo, e asseguram no final o convívio de toda a família nesta vida, sem excluir a glória eterna.

Que exemplo de amor pelos pais e que ternura de um filho para com eles!…

Quem não gostaria de visitá-la? Mas esta educação foi o segredo e o espelho da sua vida!…




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