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Eurásia: o grande desafio

Sem pretender fincar-me numa retórica eurocêntrica, afigura-se-me que com a Turquiana União Europeia, poderá falar-se, com propriedade, da “Eurásia” como o novo e mais complexo
“porto de abrigo”
que integraremos

N/D
28 Out 2004

Num livro delicioso, ao longo de cerca de 500 páginas, Jean Monnet (1888-1979), um dos mentores activos da actual União Europeia, conduz na sua autobiografia o leitor numa viagem, que atravessa os primeiros três quartéis do século XX, na qual desvenda a raiz, o desenvolvimento e o desfecho de acontecimentos e transformações várias centradas na Europa – designadamente, as 1.ª e 2.ª Guerras Mundiais e o processo de unificação europeia.

Monnet, que já em 1944 defendia a necessidade de uma forte integração europeia (ver Jean Monnet – Memórias, p. 226, ed. portuguesa de 2004, a partir do original de 1976), acaba o seu relato afirmando que a evolução desse processo há-de levar um dia a uns Estados Unidos da Europa, não vislumbrando, porém, se os mesmos serão enquadrados numa federação ou numa confederação.

Monnet não aposta, com rigor, numa previsão da futura arquitectura europeia porque, sustenta, ninguém é capaz de dizer hoje qual será a forma que terá a Europa onde havemos de viver no futuro, já que a mudança que resultará da mudança é imprevisível (ob cit., p. 529). Não obstante esta contenção de Monnet acerca do futuro, a Europa que o preocupa e o comove é sobretudo a da parte ocidental, como não poderia deixar de ser num tempo em que a “cortina de ferro”, que persistiria por mais uma dezena de anos após a sua morte, se mostra demasiado espessa e inabalável.

As referências precedentes surgem-me a propósito do futuro alargamento da U.E. à Turquia, o qual concretizando-se (como indicia o discurso oficial da maioria dos líderes da União, não obstante a menor simpatia no eleitorado em diversos países, a atender a algumas sondagens, designadamente na França e na Alemanha, onde existem numerosas comunidades muçulmanas) constituirá, inquestionavelmente, o maior desafio para o percurso e para as realizações materializadas na União, ao longo dos últimos cinquenta anos.

A adesão da Turquia à União Europeia, a par de algumas vantagens, arrasta inquestionáveis perigos. No rol das primeiras, podemos relevar o papel de intermediário que a Turquia pode desempenhar no relacionamento entre Europa (o Ocidente) e o mundo muçulmano – relacionamento que, nos últimos tempos, mercê do persistente conflito israelo-árabe, da invasão sobre o Iraque e dos múltiplos atentados contra pessoas e interesses ocidentais se mostra notoriamente conturbado; pode ainda entrever-se um rejuvenescimento da Europa derivado da pujante demografia turca, o que facilitará a sustentabilidade do welfare state na União; a inclusão turca na U.E. pode também contribuir para afirmar a democracia neste estado e servir de exemplo para o mundo islâmico.

No elenco das dificuldades resultantes da adesão da Turquia, podemos contabilizar: a redefinição geográfica da União (a quase totalidade do território turco fica na Ásia); a vizinhança mais apertada com os países instáveis do Médio-Oriente; os custos da adesão de um país bastante pobre e muito populoso (70 milhões de habitantes); por último, sobrelevando-se em importância aos anteriores, ocorrerá uma significativa alteração na identidade da União – o vector económico tenderá a esbater o projecto de uma federação europeia – e a prazo cresce o risco de uma futura desagregação.

A Turquia tem desenvolvido esforços vigorosos de europeização e ocidentalização desde finais da 1.ª Guerra Mundial (adopção do alfabeto e do traje ocidental, progressiva laicização, adesão à NATO). A favor da adesão, também muitos dirigentes turcos reclamam o papel de ponte civilizacional para o seu país.

Porém, como friamente lembra S. Huntington, uma ponte é uma criação artificial entre duas entidades concretas, mas não é parte de nenhuma delas (in O Choque das Civilizações).

Pode, pois, entender-se que apesar da assinalável europeização da Turquia, as diferenças persistentes no quadro cultural, tornam o alargamento a este país no mais problemático de todos os até agora observados, e por isso os mais cépticos – ou mais realistas, acrescento – propõem apenas, no imediato, uma parceria alargada.

A História demonstra que a viabilidade, a consistência das unidades políticas (estados nacionais, federações ou impérios), assentou muito nos vectores históricos e culturais transversais às respectivas populações – experiência de vivências em comum, a língua, a religião, leis e costumes semelhantes, designadamente.

A desagregação da Jugoslávia ou da União Soviética, na década de 90 do século passado, resultou da não verificação de vários destes pressupostos. Simultaneamente, e só com aparente contradição, a História ensina que o nacionalismo – o patriotismo exagerado, devedor do imperialismo – se constituiu demasiadas vezes, e estupidamente, em fautor de guerras.

A União Europeia constitui hoje a maior união de estados, livremente associados, no mundo. Podemos, utopicamente, imaginar um futuro longínquo em que o mundo, livre das rivalidades nacionais, constitua um único superestado pacífico. Essa não será contudo, parece óbvio, uma realidade para gerações próximas. Assim, enquanto tal não acontece, é legítimo inferir que alargamento da União Europeia não pode perspectivar-se acelerada e indefinidamente na ordem do dia, sob pena de a União, por tanto crescer, se vir a fraccionar numa data futura. E se um dia a Rússia (como alguns já admitiram) se colocar na calha para membro desta União Europeia? Diremos, então, que a Rússia aderiu à União Europeia ou antes que a União Europeia foi absorvida pela Rússia?

Sabemos que a União Europeia nasceu e evoluiu, correntemente, sem a auscultação directa das populações dos diferentes estados. Convém, porém, que o perfil da União não evolua desassombradamente, ignorando em absoluto algumas lições da História e a vontade dos seus povos. A terminar, fazendo jus ao título deste artigo, sem pretender fincar-me numa retórica eurocêntrica, afigura-se-me que com a Turquia na União Europeia, poderá falar-se, com propriedade, da “Eurásia” como o novo e mais complexo “porto de abrigo” que integraremos.




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