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Há poesia no seu coração?

“É com o coração que vemos claramente, pois o que é essencial é invisível aos nossos olhos” (A. Saint-Exupery, em “O Princepezinho”)

N/D
26 Out 2004

A criança tem uma capacidade de prestar atenção e de explorar tudo o que a rodeia como se tudo fosse novo e engraçado. Olha para as coisas e gosta delas sem preconceitos. O adulto, porém, foi perdendo essa capacidade de prestar atenção e tende a ver apenas o que lhe interessa. A maior parte da vezes, passa ao lado das coisas, olha mas não vê e, se as vê, não as sente. Está fechado no seu mundo de preocupações como se nada mais existisse para além dele.

A propósito disto, Osho, o sobredotado mestre de Filosofia que muito prezava a intuição, escreveu estas significativas palavras: “Olhe à sua volta! As vidas das pessoas estão absolutamente envenenadas, envenenadas pela cabeça. Não conseguem sentir, deixaram de ser sensíveis, nada as emociona. O sol nasce, mas dentro delas nada nasce, olham para o nascer do sol de olhos vazios. O céu enche-se de estrelas – que maravilha, que mistério! – mas nada se move nos seus corações.

As aves cantam, o homem esqueceu-se de cantar. Aparecem nuvens no céu e os pavões dançam, mas o homem não sabe dançar, tornou-se um inválido. As árvores dão flor; o homem pensa, nunca sente e sem sentir não há floração possível.

Lance um olhar sobre a sua vida. Mais ninguém o vai ajudar. Há muito tempo que o leitor depende dos outros; é por isso que se tornou estúpido. Agora, tenha cuidado: a responsabilidade é sua. É seu dever lançar um olhar profundo e penetrante ao que está a fazer com a sua vida. Há alguma poesia no seu coração? Se não há, então não perca tempo. Ajude o seu coração a tecer e a fiar a poesia.”

Cada época tem as suas características, umas melhores e outras piores. A geração anterior à nossa foi mais marcada pela racionalidade, menos expressiva nos sentimentos; a geração actual é mais sensível, mais interior, mais existencial.

Talvez, por isso, mais sensível à procura da religião. Hoje, fala-se mais em Inteligência Emocional do que em Quociente de Inteligência. As ideias já eram conhecidas, mas não se lhe reconhecia tanto valor.

Um jovem estudante que, há umas décadas atrás, manifestasse interesse pela poesia era considerado alguém que vivia na lua. Quando, há algum tempo, ouvi a notícia de que o Papa tinha publicado um livro de poemas fiquei perplexo. Ouvi, mas não acreditava. É um sinal novo. É que a poesia é da ordem do sentimento, da ordem da emoção, da ordem do coração: e a vida nasce do coração; é da ordem da intuição: vê, sente, acredita, vive o deleite da beleza da realidade e procura exprimir o às vezes inefável com imagens diferentes da linguagem comum.

Para nós, ocidentais, que fomos educados numa cultura mais racional, é muito difícil falar da intuição. Há tempos, participei num curso sobre intuição, no âmbito do desenvolvimento da Sofrologia terapêutica. Confesso que me foi difícil entrar nesse mundo existencial, mais longe das nossas categorias e mais perto da cultura oriental.

Pelo menos, a partir daí, comecei a respeitar mais os fenómenos ditos parapsicológicos, sem deixar, claro está, a análise racional. Brian Weiss conta, num dos seus livros, que um dia foi ao Brasil fazer umas conferências sobre as suas investigações a respeito de memórias de vidas passadas e lhe apresentaram uma senhora, de pouca cultura, que diziam ser vidente.

Ela olhou para ele, cumprimentou-o e, de repente, começa a falar-lhe de factos da sua vida e de outros que ele andava a investigar como se os estivesse a ver e dando opinião. Brian Weiss, Professor de Psiquiatria e com uma fina capacidade de análise freudiana, diz que a primeira reacção foi de espanto e de um tremor íntimo, mas logo entrou na conversa e ficou profundamente admirado com a capacidade de intuição dessa pessoa simples, que via para além do tempo e das condições habituais da nossa percepção.

Não há dúvida que esta mulher apresentava uma capacidade de intuição que a maioria de nós não tem. E há muitos casos assim. Não é por não termos a capacidade de visão da águia, o faro de um cão ou a percepção sonar de um golfinho que lhes vamos negar essas qualidades. Se calhar, todos nós temos algumas capacidades que estão ocultas, uns mais do que outros; mas a nossa cultura racional não faz apelo a essas capacidades nem as utiliza.

O leitor já experimentou, por exemplo, tentar distinguir as cores, de olhos fechados, só pelo tacto? Pois, olhe que se consegue. Não tem nada de mágico, porque as cores são apenas a expressão de diferentes comprimentos de onda da luz, mais quentes ou mais frias. Mas é preciso uma paciência e um treino de descontraída atenção que nem sempre temos. A nossa vida não está organizada para isso. E é pena. Há muitas capacidades que desperdiçamos na vida e que bem úteis nos poderiam ser.

A poesia é um olhar diferente sobre a realidade. Um exemplo: o leitor encontra uma pessoa, numa circunstância qualquer, em férias, em trabalho, num encontro de amigos, simpatiza com ela, falam um pouco do que fizeram na vida, a pessoa conta que esteve bastante tempo fora e depois regressou, dizemo-lhe que está muito jovem (os mais velhos gostam sempre de ouvir este elogio, especialmente as mulheres, porque a beleza é a sua forma espontânea de afirmar o seu poder de relacionamento e sedução). Se a pessoa é daquelas com que se cria facilmente empatia, pode daí nascer eventualmente uma amizade. Até aqui, tudo vulgar, tudo prosaico.

Acontece a qualquer pessoa, embora até hoje ninguém fosse capaz de explicar o fenómeno da simpatia imediata entre duas pessoas que se encontram (quer dizer, explicar explicam, o que é a explicação é que não convence ninguém…). Todos nós temos experiências dessas. O povo diz que é o encontro de duas almas gémeas; a ciência diz que não há almas gémeas. Cada um diga o que quiser. Os factos existem, mas a explicação do fenómeno escapa-nos.

Como é que um vulgar acontecimento deste género se pode transformar numa experiência poética? Francesco Alberoni chama a este fenómeno poético uma forma de enamoramento. O resultado poético dessa conversa podia ser este:

MENINA DOS OLHOS VERDES

Menina de olhos verdes sonhadores
Em teus dezoito anos de frescura,
Que sonho te levou por mundo fora
Em busca do ideal ou da ternura?

O sonho te levou e trouxe embora
Mas, na viagem longa da aventura,
Foi-se apagando o cântico da aurora
E o sol já caminhava lá na altura.
Tudo na vida tem sua estação:
A mocidade passa, os sonhos vão,
As flores murcham, morrem a seguir;

Só tu não foste assim: a primavera
Mantém teu coração como antes era,
Teus olhos continuam a sorrir…

Qualquer que seja o objecto da poesia, aí se encontra sempre esta forma de enamoramento poético. O olhar poético é mais íntimo do que o olhar racional e prosaico, é mais sensível, é mais fundo, é mais pessoal e, por isso, é mais verdadeiro, é mais íntegro. Nasce do coração. Para Osho, o olhar poético é uma espécie de caminho místico que entra em comunhão com Deus que está oculto em toda a natureza, sem se confundir com ela.

Por isso, ele pergunta: há poesia no seu coração (isto é, há luz, há bondade, há beleza, há sinceridade, quando olha para as pessoas ou para as coisas no dia a dia)?

O olhar poético é mais intuitivo: vê para além do olhar. O autor do Princepezinho dizia: “o que é essencial é invisível aos nossos olhos”. O olhar poético transforma o objecto contemplado num objecto de amor e de beleza ou, por outras palavras, descobre beleza e simpatia onde outros a não vêem.

Um vulgar encontro ou acontecimento da vida pode ser expresso de duas maneiras: uma pelo discurso racional que o procura explicar; outra pela intuição estética e afectiva e sua forma própria de expressão. Já repararam que os poetas, os artistas, os santos, os videntes, os carismáticos (e até mesmo os verdadeiros líderes) têm todos uma grande riqueza de sensibilidade e intuição?

Qual dos dois modos de estar na vida é mais importante para nós: o racional ou o intuitivo? São ambos juntos.




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