Fotografia:
Cem dias ao estilo de Santana

Escrevo no dia em que o actual Governo de coligação, liderado por Pedro Santana Lopes, cumpre cem dias de mandato.

N/D
26 Out 2004

Logo que acordei e liguei o rádio, uma pergunta era colocada aos ouvintes de uma rádio de cobertura nacional: “Diga o que houve de melhor e de pior na actuação deste governo, nestes cem dias”. Certo da diversidade e amplitude de respostas que iam surgir, não mudei de estação e estive a ouvir as opiniões daqueles que quiseram telefonar para a referida estação de rádio a dar a sua opinião.

O leque de opiniões foi bastante variado e ouviu-se de tudo: desde aqueles mais radicais que continuam a reclamar o 25 de Abril e a dizer que este é um Governo de extrema-direita (pobres ignorantes), aos mais moderados que analisam os erros do executivo com a clareza e coerência que se exige a quem se dispõem a falar num órgão de comunicação social, até aqueles que defenderam o elenco governativo com “unhas e dentes”. De tanto ouvir falar, de tantas opiniões ver ali retratadas, entendi que era perfeitamente justo que também o fizesse neste espaço de opinião.

Desde logo digo que não me identifico com nenhum dos “grupos” acima mencionados.

Tento ser acima de tudo realista e pragmático, para poder analisar as coisas com a maior imparcialidade possível, sem ceder às emoções ou à análise limitada pelos princípios político-ideológicos.

Como qualquer Governo, em qualquer democracia, não se pode analisar o seu desempenho em cem dias, retirando daí ilações de natureza eleitoral. Pode-se e deve-se fazer um balanço da sua actuação focando os pontos negativos e os pontos positivos.

Desde logo começando pelos mais negativos, destacaria como o pior de todos a situação vivida com os concursos dos professores. Aquilo que deveria ser um acto administrativo de prática corrente, transformou-se numa crise de natureza político-governativa. No que diz respeito a este assunto cabe aqui referir que mais do que o problema em si, foi a forma como lidaram com ele.

Esta foi a pesada herança deixada pelo anterior Ministro da Educação, aquando do Governo de José Manuel Durão Barroso, e com o qual este executivo se viu a braços sem, com pouco tempo para a sua resolução e ainda por cima com uma série de circunstâncias que se revelaram restritivas à forma de resolução desta “embrulhada”.

Foi a empresa de informática que não conseguiu atingir o fim a que se propôs e foi a Ministra que se enredou numa infindável teia de decisões que deveriam ter sido tomadas em tempo útil e não o foram.

No que diz respeito à responsabilidade da empresa de informática que não conseguiu resolver o problema, há que apurar responsabilidades, pois quem não faz o serviço que contrata, não só não é pago, como tem de responder por aqueles que tenham sido prejudicados com essa mesma situação. Seria também interessante que se explicasse em que moldes a “Compta” ganhou o concurso para a prestação deste serviço, para que nenhuma dúvida subsista em relação a esta matéria.

Por sua vez, a Ministra, poderia e deveria ter tomado a decisão que acabou por tomar, de uma forma mais rápida, ou seja, foram dadas demasiadas oportunidades a uma empresa que se revelou completamente ineficiente na resolução do problema que ela própria criou. Aquilo que a “Compta” não fez em meses, fez outra empresa em dias… Quando temos um problema e a entidade que o está a tentar resolver não é eficaz, rapidamente temos de mudar de entidade.

Quanto ao aspecto mais positivo julgo ser a nova Lei do Arrendamento Urbano. Este foi um passo importantíssimo que este Governo teve a coragem de dar, visto que outros houveram que foram “deixando na gaveta” este assunto, talvez por se tratar de uma matéria pouco popular. Era imperativo a reformulação desta lei e é uma marca com o cunho personalizado do Governo de Coligação que permanecerá como referência destes primeiros cem dias de governação.

De realçar como aspecto bastante positivo a comunicabilidade deste executivo. É uma marca do primeiro-ministro, com um estilo muito próprio e que já se alastrou ao resto do executivo, mesmo aos que transitaram do anterior Governo. Santana Lopes é um comunicador por excelência e isso é um aspecto fundamental no perfil dos governantes de hoje.

É fundamental explicar em matérias base porque se tomam determinadas decisões e fazê-lo de uma forma clara, perceptível a todos. Vimo-lo na comunicação ao país realizada pelo ministro das Finanças e mais tarde na do primeiro-ministro. De tal forma é relevante este ponto que até incomodou a oposição, levando-a a apressar-se na tentativa de arranjar algo que pudesse “ilegalizar” este tipo de acções. Quem não tem imaginação acaba aprisionado a questões de mesquinhez política e sem sentido nenhum.

Como aspecto neutro, mas de referir é o “caso Marcelo Rebelo de Sousa”. Ora o Ministro deu importância a alguém que tem peso na sociedade, tem um valor cultural, político e social inegável, mas que de facto desempenhava a função de comentador televisivo: ponto final parágrafo.

Se vamos comentar os comentários, não vamos a lado nenhum!

Tudo o que se criou à volta disto, mais não foi do que uma manobra de circo, com milhões de espectadores a assistir sem perceberem que disso não passava. Basta pensarem um pouco para perceberem que não pode haver nexo de causalidade numa demissão de um comentador de uma televisão privada, constituída por capitais privados, com gestão privada, e que por sinal é um dos canais mais críticos do Governo em funções. Haja ingenuidade para acreditar que a coligação governamental tem influência a esse nível…!!!

Esperemos agora pelo fim do mandato para julgar o trabalho global deste executivo… e já agora o da oposição liderada por Sócrates.




Notícias relacionadas


Scroll Up