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Duelo literário

Será que a nossa literatura é hipócrita porque falta à realidade e pretensiosa porque se julga única? A didáctica da leitura não deverá matutar seriamente sobre esta questão? E os exames de português não deverão reflectir mais uma imagem do que se passa no mundo deles do que o que passou no nosso mundo

N/D
25 Out 2004

Sempre que se fala em leitura fala-se que no “nosso tempo”: havia gosto pelos livros, predisposição para ler os clássicos, enquanto agora, dizia eu ao auditório familiar que me escutava com paciência e sem entusiasmo, os jovens não querem ler, são simples receptadores de televisão, entram nos concursos e não sabem as coisas mais elementares, blá blá, num desfiar de contas dum rosário que por muito passado tem as contas gastas e nenhum proveito.
Estava presente um neto, reguila e muito pronto para a contestação, dizem os entendidos em psicologia aplicada que é a afirmação mais visível da independência da personalidade, pois assim seja, o facto é que lhe propus um pequeno concurso sobre literatura. Eu faria cinco perguntas e ele faria a seguir outras cinco. Aquele que respondesse a menor número de perguntas pagaria o lanche na pastelaria lá de baixo.

O desafio não poderia ser recusado por nenhum de nós, sob pena de ficarmos diminuídos em conceito próprio e dos demais, como coisa de muita parra e pouca uva.

Começo eu, começas tu, vamos ao sorteio de moedinha ao ar. Começo eu: diz-me as duas principais personagens de A Cidades e as Serras? Qual o parentesco entre Carlos e Joaninha, em Viagens na Minha Terra? Na Morgadinha dos Canaviais quem é o protegido do herbanário? Como se chamava a filha do ferrador, em Amor de Perdição?

E para acabar, por que razão Eurico se fez presbítero? O moço não foi capaz de dar uma única resposta certa, até dizia entre dentes, que raio de gente será aquela? Era a vez do neto; o rapaz tirou do bolso um papel que estivera rascunhando enquanto eu lhe fazia as perguntas e começou: diz-me três personagens do Harry Potter? Qual é a figura feminina da série Dragon Boll? Quem é a apaixonada do Tio Patinhas? Como é que se chama o cão do Obelix? Quem era o Pluto e a Miny na história do Mikey? Não fui capaz de responder a nenhuma e ia dizendo mentalmente, que raio de personagens serão aquelas? Ficamos empatados e seguiu-se nova série de perguntas e respostas.

Estávamos aos pénaltis. Eu fui para José Saramago, Rita Ferro, Cardoso Pires, Lobo Antunes. E ele em resposta refugiou-se nos heróis de Os Cinco, nos heróis de Os Sete e, em jeito de provocação, perguntou-me questões relacionadas com o livro que tinha saído sobre o Benfica, o clube da sua paixão. No final nenhum de nós venceu o outro.

Ficamos um pouco incomodados, nós os mais velhos, os da velha literatura, por não sermos capazes de afirmar a superioridade das nossas leituras sobre as leituras do neto, mas no fundo conscientes que isto de ler e de livros têm as suas épocas e que cada geração também sabe encontrar nos livros das suas preferências as sua identificações; cada geração tem os seus heróis. Será que a nossa literatura é hipócrita porque falta à realidade e pretensiosa porque se julga única?

A didáctica da leitura não deverá matutar seriamente sobre esta questão? E os exames de português não deverão reflectir mais uma imagem do que se passa no mundo deles do que o que passou no nosso mundo? Tive que ser eu a pagar o lanche, na pastelaria lá de baixo, fui eu o desafiador, “por isso quem paga em caso de empate é quem desafia e não quem é desafiado”, segundo as regras que ele inventou naquele momento.

A verdade é que ele sabia, à partida, quem iria pagar a despesa do lanche na pastelaria lá de baixo. Fi-lo com imenso gosto.




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