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Cultura da Eucaristia

Certa religiosidade recorrente em muitos dos católicos (ditos) praticantes precisa de reflectir sobre as consequências de ter celebrado a eucaristia, tornando-a força de missão

N/D
25 Out 2004

Neste Ano da Eucaristia, haja um empenho, por parte dos cristãos, de testemunhar com mais vigor a presença de Deus no mundo. Não tenhamos medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os sinais da fé.
A “cultura da Eucaristia” promove uma cultura do diálogo, que nela encontra força e alimento. É errado considerar que a referência pública à fé possa ofender a justa autonomia do Estado e das instituições civis, ou então encorajar atitudes de intolerância» – João Paulo II, “Mane nobiscum Domine”, n.º 26.

Nesta Carta Apostólica, publicada no dia 7 de Outubro passado, podemos encontrar as linhas principais do Ano da Eucaristia iniciado a 17 de Outubro e com termo a 29 de Outubro de 2005.

Quando o Papa se refere à «cultura da Eucaristia» que poderemos entender? Desde logo esta temática é apresentada no contexto da «eucaristia princípio e projecto de missão». Desta forma se projecta a eucaristia à dimensão das consequências, tendo em conta o mistério teológico, cristológico e eclesiológico.

Mesmo que de forma simples gostaríamos de partilhar breves preocupações numa espécie de reflexão incomodada e sem grandes certezas, mas antes com perguntas:

* Celebração ou rito?

Se nos detivermos a observar a presença de muitos/as dos participantes na eucaristia não será difícil de perceber algum ritua-lismo (na forma de rotina ou com sabor a tradicional), onde a consciência de assembleia crente/orante/celebrante não é muito clara. Sobretudo nos sacramentos de índole mais social (baptismo e matrimónio) e nas missas de defuntos nota-se – em muitos casos! – alguma dose de superstição e de certos conteúdos de magia a necessitarem de ser expurgados em ordem a uma melhor compreensão da sua função cristã e não meramente com arranjos exteriores.

* Missa pastoral ou evangelizadora?

Atendendo ao público alvo das nossas celebrações é-nos exigida uma grande capacidade de discernimento em ordem a sabermos atender a quem procura as missas de porta aberta (sobretudo) nas paróquias. Com efeito, a tão dispare assembleia (sobretudo dominical) torna cada presidente-celebrante um comunicador a quem se exige uma grande versatilidade, se tivermos em conta a diversidade etária, profissional, cultural e eclesial.

Por isso, ou damos atenção aos rudimentos da celebração, tornando-a numa oportunidade evangelizadora ou fazemos com que possa ser momento catequético (de pessoas já educadas minimamente na fé) e com dimensão de cuidado pastoral.

Nem sempre se poderá viver esta exclusividade tão simplista! O disjuntivo não costuma ser característica da forma de educar da Igreja Católica. Assim a eucaristia – particularmente neste ano – continua a ser feita para e com aqueles que dela se aproximam para a celebrarem, viverem e dinamizarem!

* Missa com dimensão política?

Reportando-nos ao sentido etimológico de «política» como a «vivência da vida da cidade», te(re)mos de considerar que, se a Missa não nos empurrar para o compromisso com os outros cidadãos, estará truncada numa das suas dimensões mais genuínas: depois da celebração da eucaristia somos enviados ao mundo.

No entanto, há pequenos aspectos de natureza politizada com que, muitas vezes temos de conviver nas nossas celebrações. Por certo já vimos a atrapalhação de certas figuras públicas quando têm que estar numa missa de festa, de cerimónia fúnebre ou qualquer outro acto que tenha a cobertura da perspectiva católica.

Os ditos actos oficiais (protocolares, circunstanciais ou de cortesia) revelam-nos tantas vezes algum agnosticismo ou complexo de vergonha. A compostura vai disfarçando a perplexidade de quem está como peixe fora da água. Até que ponto poderemos confundir formalidade sem fé com boas maneiras sem interioridade?

Por outro lado, certa religiosidade recorrente em muitos dos católicos (ditos) praticantes precisa de reflectir sobre as consequências de ter celebrado a eucaristia, tornando-a força de missão. Como diz o João Paulo II na Carta apostólica “Mane nobiscum Domine”, cada missa «desafia ainda mais fortemente os cristãos a viverem a Eucaristia como uma grande escola de paz, onde se formem homens e mulheres que, a vários níveis de responsabilidade na vida social, cultural, política, se fazem tecedores de diálogo e de comunhão» (n.º 27). Estaremos capazes de entender o que nos diz o Papa? Como vamos vivê-lo e ajudá-lo a viver?




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