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Lutar pelo comércio justo

No fim-de-semana passado, assisti a uma notícia no canal público de televisão sobre a venda, pela Unicef, de um cabaz de produtos alimentares, produzidos em países em vias de desenvolvimento.

N/D
21 Out 2004

Isto não seria noticiável se a sua luta não fosse pelo estabelecimento de um comércio justo, onde se paga a quem produz aquilo que o produto vale ao ser vendido nos países do intitulado primeiro mundo.
Esta iniciativa foi, talvez, coincidente com a comemoração do Dia Mundial da Alimentação, e uma chamada de atenção para o flagelo da fome e da subnutrição que grassa ainda pelo nosso mundo.

Sabemos que a economia de mercado é cega e só busca o lucro pelo lucro, não olhando a meios para atingir os seus fins. As pessoas não são o destinatário principal da produção, mas o meio pelo qual se obtêm produtos fabricados a baixo custo e se recolhem lucros pela sua venda.

Nos meus tempos de estudante, nas aulas de Introdução à Actividade Económica aprendi as regras do mercado: se a procura aumenta e a oferta é escassa, os preços sobem; se a oferta é grande e a procura pequena, os preços baixam.

Contudo, tal não se passa assim nos nossos dias. A inflação continua a manter-se, os stocks não baixam e os preços sobem desmesuradamente, principalmente nos bens de consumo básico e essencial como a alimentação.

A ideia de comércio justo tem que ser implementada, não só entre os países do primeiro e do terceiro mundo, mas também dentro das nações desenvolvidas, como é o caso de Portugal se o compararmos com a maior parte do mundo.

Como se podem manter os produtores (lavradores, pescadores, criadores de aves e gado) se o produto do seu trabalho e investimento chega às mãos do consumidor, muitas vezes custando mais 100 % ou 1000%, ficando os lucros não para eles, mas para aqueles que detêm os mecanismos de distribuição das mercadorias? É imperioso reagir e criar meios de distribuição locais por onde os produtos possam ser escoados.

Fiquei escandalizado, ao ouvir os pescadores da lota de Matosinhos, a dizer que vendem o quilograma do pescado a 5 cêntimos ao intermediário, e este coloca-o no mercado a 3, 4 e 5 euros o quilograma. Espantado fiquei ao conversar com lavradores que preferem deixar a safra da batata nos campos a vendê-la quase dada aos revendedores.

Como pode uma economia subsistir com tamanha desigualdade? Como poderão as classes baixas e médias aguentar um custo de vida superior à média europeia, em cujos países os salários são duas, três ou mais vezes superiores?

É preciso lembrarmo-nos daquelas palavras do Mestre de Nazaré: «Porque tive fome e deste-me de comer; tive sede e deste-me de beber…». Não podemos cair na omissão de nada fazer, fazendo de conta que o problema não existe.




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