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A presunção de pedagogos políticos

Sempre pensei que muitos portugueses eram cidadãos bacocos… Mas que isto começasse por cima, mais que parlamentar é para lamentar…

N/D
19 Out 2004

Na visita ao Luxemburgo, Jorge Sampaio, Presidente da República levou no bolso bolas para oferecer com a assinatura de jogadores que participaram no EURO 2004. Quem vê isto, fica mesmo a pensar que somos um país de jogadores olímpicos e não vemos mais nada… Se organizámos bem, devíamos ter tido vergonha de sermos anfitriões e termos perdido duas vezes, na própria casa com um país, que nunca foi nada no futebol – a Grécia.

Esta circunstância é tão agravante na medida em que, com esta viagem e alguns empresários da comitiva, pretende-se desfazer a de um país de emigrantes, desfavorecidos e muitos pobres, que para lá rumaram em circunstâncias muito difíceis, e motivar a exportação dos nossos produtos.

Já reparámos nos símbolos em que nos exprimimos através de pessoas responsáveis?

Só faltava fazer uma “sardinhada”, frente às instituições europeias, com uma série de copofónicos, ao fim da tarde a dançar o folclore, com uns aperitivos de queijo da serra, bucelas e vinho do Porto… a brindar com Durão Barroso. Mesmo assim, seria um apelo à nossa gastronomia re-gional. Mas oferecer bolas, talvez fabricadas por chineses ou coreanos, tem algum sentido? Ora bolas!…

Não admira que, num país, que chamou aos estádios as novas “catedrais”, ao campeonato um roteiro de peregrinos e as bolas as novas safiras ou ouro de Ofir, tudo se tenha subvertido numa religião, que endeusa futebol e se ri dos ritos, como dos assobios que nos penalizaram. Será desta forma que nos vamos impôr e libertar de imagens, como labeu, que nos sujou, mesmo com o péssimo aproveitamento e insucesso nas nossas e nas escolas luxemburguesas? E se estas imagens forem transmitidas pelos satélites, ficaremos mais honrados?!…

Quem conhece o nível destes portugueses emigrados, cujo pregão é ainda a sardinha – o icone da miséria e da tradição de um mar esfíngico, hoje com pouco peixe, ou a saque de holandeses – , o fado, futebol, folclore e, para alguns Fátima – , não falando do jogo de cartas para os reformados nos centros e associações, esperaria que lhes levassem outros horizontes e símbolos mais libertadores, como imagens de marca, que permitissem troca de produtos comerciais, mas continuamos com cocaína e a amorfinar nacionalismos descabelados com futebol e outros ingredientes, que nos atascaram e ataram ao cordão umbilical, mas sempre nos diminuiram e prostergaram.

Os europeus querem muito mais de nós… Não basta mostrar-lhes as auto-estradas, que ajudaram a construir. É preciso imagens e símbolos libertadores de um povo com história, tradições, cultura, artesanato, turismo, mas não a do futebol, aliás num país que também não tem grandes tradições futebolísticas e se pauta a vida por outros horizontes, como se ufana de outras catedrais…

Sempre me impressionou esta cultura e simbologia mítica, num país que endeusa futebol, paga faustosamente a jogadores estrangeiros, mesmo das antigas colónias – passando de colonizador a colonizado – mede quase tudo por esse prisma. Foi desta forma que as classes ditas políticas, mentores da pólis e bem pensantes sempre imbecilizaram o povo e não têm escrúpulo de humilhar os mais pobres perante cidadãos estrangeiros…

Compreendo agora 50.000 pedagogos que não têm emprego. Para quê? Para fazer esta catequese? Para pregar contra a natalidade, como vi há anos, zombando até de famílias numerosas? E agora estão no desemprego. Aliás, como académicos serão os melhores exemplos de fecundidade? Não estranhemos pois estarem no desemprego.

Muitos licenciados não terão mesmo outro recurso, senão reciclarem-se para outras profissões, especialmente nos domínios, em que somos muito deficientes. Ou então, para ensinar com outra pedagogia, como multiplicadores e animadores sociais, despertando os políticos para outra pedagogia com ambições, moral e horizontes menos atascados.

Quem olha de fora tudo isto, conhecendo por dentro e por fora o que se passa, acha-o de gritos. Olhar os pequenos do terraço foi contudo sempre a melhor forma de os grandes os oprimirem ou se rirem deles… Não pensem que todos são imbecis. Mas é de lamentar que assim se tratem os cidadãos fora da sua pátria, não bastasse a angústia de se sentirem expatriados, recusados, exilados, ou portugueses de segunda no seu próprio país.

Esperem pela ressaca!…




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