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Num clima de solidariedade virtual

Certos dramas que, diária ou ciclicamente, nos entram pela casa dentro – através dos jornais, da rádio e (sobretudo) da televisão – soam a oco/virtual/sem consequências práticas notórias.

N/D
18 Out 2004

Bastará olhar, por exemplo, para a saga rocambolesca da pequena Joana (em Portimão) para entendermos que algumas opiniões tilintam a falso, mesclando negligência com má desculpa e acusação de desatentos às causas daquele “episódio”…

Com efeito, conhecemos mais facilmente o que se passa lá ao longe, mas como que ignoramos o que se está a passar ao nosso lado, bem perto do lugar onde vivemos, paredes meias com a nossa consciência adormecida! Isso mesmo quis significar a “procissão da luz” realizada na Figueira (Portimão) no passado dia 9!

Quantas vezes há situações que nos passam ao lado ou que fazemos por dar pouca importância. De facto, há muitas “Joanas” bem perto de nós, mas a quem ninguém liga… até ao dia em que o drama possa acontecer.

Há crianças carentes de pão e de afecto. Há adolescentes que chamam a atenção dos mais velhos, mesmo que para isso tenham de tentar seduzir as (nossas) distracções.

Há jovens que tentam substituir carências mais ou menos profundas com experiências de risco, denotando mesmo desorientação por parte dos adultos acusadores e algo hipócritas. É impressionante como sabemos tantas coisas ao longe e estamos tão distraídos das necessidades junto de nós!…

Ainda nesta etapa de pseudo-consciencialização temos assistido ao empolar do “espectáculo” – previsível mas sempre mais atrevido do que o “casting” previa! – de certas celebridades, tanto na quinta como nos noticiários: o zézé rivaliza com o marcelo; a porca compete com os deputados; o esterco mistura-se com as insinuações; o palácio agrilhoado amesquinha os directos do vale… No ar anda um clima de suspeita, com acusações, um certo mau perder e a promoção de quem ainda não descobriu – tantos/as “êtes” (batanetes, santanetes, socranetes > tios e tias, sobrinhos e afilhadas) da nossa praça! – o ridículo a que se vai expondo!

É cada vez mais previsível que aquilo que hoje (ou mesmo nesta hora) é importante, logo deixá-lo-á de ser porque outro acontecimento lhe roubou a visibilidade. Na catadupa de factos podemos ficar confundidos com o rumo a seguir.

Por isso é necessário ter critérios, tanto de leitura como de análise, procurando descobrir quem informa quem e, sobretudo, o quê. Dentre a compreensão possível poder-se-á dizer que um acontecimento tem múltiplas perspectivas, tudo dependendo daquela que nos é apresentada ou do ângulo com que vemos o assunto.

Mais do que vender papel, ganhar no “share” ou vencer na última novidade, temos de saber educar para os valores. Através destes poderemos ter leitores, espectadores ou ouvintes com maturidade de escolha, de opinião e de análise. Será isto que estamos a fomentar?




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