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A força do espírito ou o espírito da matéria?

Hoje, assiste-se a algumas sombras humanas e, talvez nunca como hoje, a Europa tenha tido tão maus políticos, mas bem nutridos…

N/D
13 Out 2004

Depois do anúncio da bancarrota das finanças da cidade e da diocese de Berlim, os jornais enchem-se agora com mais 43 biliões de dívidas da Alemanha, infringindo o pacto de estabilidade proposto por Bruxelas e os cortes de orçamento da Igreja.
A diocese de Aachen (Aix-la-Chapelle) tem de reduzir mais de 60 milhões de despesas, com despedimento de cerca de 1500 empregados, e a diocese de Colónia, das mais ricas da Alemanha tem de reduzir, só este ano, 90 milhões de euros, e a maior rede de supermercados Karlstadt-Quelle vai despedir cerca de 9000 empregados e fechar 77 filiais… Se tivermos em conta que na Alemanha, desde o padre ao sacristão, assistente social, funcionários da diocese-Colónia tem 45.000.! – auferem um salário, não contando os orçamentos para cada paróquia, compreendemos o que significa um tal corte, racionalização e perspectivas de ajudas sociais e sócio-caritativas no futuro, como apoios, coordenação de escolas, hospitais e jardins de infância.

Destas, a Igreja pretende desfazer-se gradualmente para se dedicar mais à formação dos pais do que ser “guarda de crianças”, cujos progenitores só a procuram para tomar conta delas, sem poder excluir os evangélicos, muçulmanos e de outras religiões.

São estes benefícios materiais e de formação cobrados nos impostos de cada cristão – católico ou evangélico – pagando 7% do salário mensal, excluídos os que ganham menos, e a maior parte das mulheres em trabalhos simples- de que o Estado aufere ainda cerca de 3% da cobrança – , através das Finanças.

Com este dinheiro, a Igreja conserva as igrejas, presta assistência, paga aos seus servidores e agentes de pastoral – rentabilizando mais que o Estado – , numa economia muito rigorosa, além de promover e subsidiar igrejas e comunidades mais pobres de Terceiro Mundo, como projectos de acompanhamento sócio-caritativo, de formação nas Igrejas mais pobres da Europa. Possui escolas de alto gabarito e subsidia faculdades de Teologia na Universidade civil, concede bolsas aos alunos mais inteligentes, mormente no campo das Artes, Teologia, Sagrada Escritura, Medicina, Bioética etc.

Todos se interrogam destes cortes de cesareana – escândalo para alguns! -, no entanto os Bispos têm coragem de o fazer sob pena de comprometerem o futuro económico da instituição Em alguns aspectos, esta Igreja mais se assemelha a um carro último-modelo, com todos os extras, mas com um carburante envenenado ou anémico. (Card. Joaquim Meissner).

Diferente de uma mentalidade da misericórdia, vigente entre nós, na Alemanha há uma outra concepção, em que os cristãos dizem que tudo deve ser pago e solidários, para que com esse dinheiro a Igreja possa ajudar os mais pobres, desfavorecidos e cumprir as suas tarefas e missão.

Mas quando a Igreja vai ao fundo, algo de muito grave se vislumbra na sociedade! Os bispos são peremptórios em dizer que temos tudo em estruturas materiais, mas falta o espírito, que construiu as grandes catedrais, assim como a Luz que iluminou a Europa e fez dela o mais rico continente de bem-estar e desenvolvimento do mundo.

Hoje, assiste-se a algumas sombras humanas e, talvez nunca como hoje, a Europa tenha tido tão maus políticos, mas bem nutridos… quando se instalou um egoismo hedonista, que faz vítimas os mais fracos, provocando tantos desempregados, com um capitalismo galopante e feroz, que só tem olhado a racionalização e lucros… As maiores consequências são sentidas na Igreja, quer pelos desempregados, que não contribuem ou se riscam da Igreja, quer pelos salários que não aumentam, apenas as horas de trabalho e redução de férias…

Para onde caminhamos? Estou mesmo a ouvir alguns dos mais piedosos a responderem que os tempos de crise são os de maior incremento espiritual, e que a Igreja se deu sempre bem com a pobreza… Por isso será o tempo das vocações sacerdotais e religiosas, como o dos leigos, que agora vão fazer o papel de cucos, nas instituições eclesiásticas e nos seus postos… por escassez de sacerdotes.

Será mesmo assim?! E uma Igreja como a nossa em Portugal, a viver de estipêndios de Missas, agora a pagar impostos a um Estado que só lhe roubou, como poderá cumprir as suas funções? Será que em nós prospera em espírito o que superabundou em economia na Alemanha? Ou estaremos, como a França, a estiolar no espírito e na matéria?!… Não será melhor pertencer a um patrão-rico? Ou seremos felizes, porque todos desgraçados e na miséria? Socialismo por cima, ou por baixo, com a agravante de sermos todos uns patetas alegres unidos na pobreza ou na miséria?!…




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