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Pequenos nadas

1. A vida ao ritmo das escadas rolantesNo nosso quotidiano surgem, sem qualquer ordem cronológica, grandes, médios e pequenos acontecimentos.

N/D
12 Out 2004

Os menores, a que chamarei pequenos nadas, segundo a letra/canção de Sérgio Godinho («a vida é feita de pequenos nadas»), passam à margem dos factos que de imediato se tornam mediáticos, dos que suscitam polémica, daqueles factos a que se presta atenção, e, finalmente, daqueles a que pouca ou nenhuma atenção se presta.

Os pequenos nadas serão, portanto, os factos a que quase não se presta atenção ou a que só alguns, poucos, prestam atenção.

É sobre esses, os mais ignorados, os «quase nada», que me quero debruçar.
O autor destas linhas desloca-se de comboio, há muitos anos, quase semanalmente, de Braga a Lisboa, utilizando na capital, como meios de transporte, o autocarro e o metropolitano.

Há pouco tempo estreou a modernizada e electrificada via férrea que liga Braga ao Porto, a melhor herança do Euro/2004, e depois, na subcapital do «reino», o seu metropolitano.

Detectou então pequenos nadas, relacionados, sobretudo, com o diferente ritmo de vida que distingue as três maiores cidades do País.

Assim, em Braga, a capital jovem por excelência, as escadas rolantes (nos centros comerciais) sobem-se e descem-se ao ritmo das conversas e da própria máquina, parando-se, inclusive, mesmo à saída, em baixo ou em cima, onde a viagem termina, à procura, talvez, do local, à direita ou à esquerda, para onde as pessoas se dirigem, originando, desse modo, inesperados encontrões e quedas.

Num breve parêntesis, permitam-nos que sonhe com o metropolitano de superfície de Braga, a ligar, talvez, Lamaçães ao Estádio Municipal e a estação da CP à Universidade do Minho – por conhecimento próprio, sei que em Strasbourg, cidade pouco maior que Braga, existe um metropolitano desse tipo, em cruz, que muito facilita a vida aos cidadãos, dada a sua comodidade e rapidez.

No Porto, conhecido como a capital do trabalho, já assim não acontece. Porém, as escadas rolantes (no metro e nos centros comerciais) sobem-se e descem-se ao ritmo da máquina, encostando-se, descansadamente, as pessoas aos corrimões, ora à direita ora à esquerda, aguardando com calma que sejam levadas mecanicamente ao local do destino.

Em Lisboa, a nossa capital política, esta cadência de vida é impossível e impensável.

As pessoas mais vagarosas encostam-se disciplinadamente ao lado direito da escada rolante (no metro e nos centros comerciais), deixando a «via» aberta do lado esquerdo aos mais apressados. Na verdade, na capital muitas pessoas sobem ou descem as escadas rolantes a correr, sendo impensável que alguém as suba ao ritmo da máquina, pelo lado esquerdo.

Se o fizerem sujeitam-se no mínimo a um impropério e, habitualmente, ao impropério, seguido do subsequente empurrão, aparentemente legitimado por falta de civilidade e de cidadania.

No entender de quem subscreve este texto, os diversificados ritmos de vida que caracterizam as nossas três maiores cidades, ou seja, por exemplo, a maior ou menor pressa no simples acto de subir ou descer umas escadas rolantes, obrigam a uma rápida habituação de quem as visite com frequência, sob pena de aparente falta de civilidade e cidadania.




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