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Outras faces da violência

Não será possível dar as notícias de crimes hediondos e outras atrocidades de modo menos chocante e sobretudo introduzir-lhe um cariz pedagógico?

N/D
12 Out 2004

A última semana foi marcada, em termos de comunicação social, pela notícia do abandono do Professor Marcelo Rebelo de Sousa do seu comentário dominical no jornal da noite da TVI.
Muito se especulou sobre as causas que teriam levado o Professor a suspender a sua colaboração naquele canal da televisão. Das pressões eventualmente sofridas para moderar as suas críticas ao Governo ou, simplesmente, o saber aproveitar uma boa oportunidade para pôr fim a uma análise que, apesar da elevada qualidade, estaria a cair na rotina e de que o próprio estaria já cansado, as razões vindas a público foram variadas.

Não pretendendo emitir opinião sobre os motivos profundos que originaram a retirada do mediático Professor e Político e que o tempo acabará por esclarecer, quero realçar um aspecto que não terá passado despercebido aos mais atentos.

Nos dias que antecederam a grande polémica, que muitos apelidaram de terramoto político, não deixa de ser curioso e fonte de alguma preocupação a passagem para plano secundário das notícias que pouco antes faziam a abertura de telejornais e capas de revistas. Refiro-me, em concreto, ao desaparecimento da pequena Joana em terras algarvias e do drama que lhe está subjacente, ou aos assassinatos de reféns por grupos fundamentalistas no Iraque.

Essa subalternização pode ser explicada pela voracidade na conquista de audiências a que os agentes envolvidos estão obrigados, sob pena de não alcançarem objectivos previamente definidos. É assim com as notícias e não deixa de ser igualmente bem vincado nas grelhas da programação dos diversos canais de televisão.

Interessa cumprir metas, conquistar público, mesmo que para tal se sacrifiquem valores continuando a passar, em horários menos próprios, alguns programas que em nada ajudam a formar consciências ou a moldar carácteres. Isto atinge sobretudo as populações jovens, porque mais vulneráveis, que assim perdem oportunidades de cultivar os bons princípios de convivência em sociedade. Isto torna-se ainda mais sério nos tempos que correm, pois a família, primeira escola desses valores, vem dando sinais de perigosa desagregação não podendo, em muitos casos, cumprir com eficácia esse papel.

Quando na última semana se discutiu também e abundantemente o princípio do contraditório a propósito das críticas, por vezes mordazes, de Rebelo de Sousa, não seria bom estabelecer um equivalente do mesmo para os equívocos e as múltiplas faces da violência que diariamente nos enchem os olhos e os ouvidos e nos constrangem o coração? Não será possível dar as notícias de crimes hediondos e outras atrocidades de modo menos chocante e sobretudo introduzir-lhe um cariz pedagógico? Por acreditar que sim e dessa maneira poder contribuir para uma sociedade mais humanizada, faço destas palavras um despretensioso alerta.

Individual e colectivamente devemos ser capazes de procurar fazer mais e melhor, para que a esperança num futuro risonho não seja senão fútil retórica. A responsabilidade passa essencialmente pela atitude que cada um, como cidadão livre, souber interpretar.




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