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Chover no molhado (46)

Disse que a menina dos olhos se alegra e descansa, serenamente, na harmonia entre todas as facetas da experiência pessoal. Por experiência pessoal entendo, aqui a vivência (superficial ou profunda) de toda e qualquer representação.

N/D
12 Out 2004

Ao falar de representações, estou a bater à porta do pensamento racional, da memória e da imaginação, abertas ao representado. E ao falar de vivência, quero despertar do seu sono, por meio da auto-reflexão, a face agradável ou desagradável do pensamento afectivo-emocional, acerca do representado. Além destas facetas, vou também chamar para aqui os aspectos físicos, fisiológicos, sociais, criativos, intuitivos e espirituais, bem como todas as potencialidades inatas da pessoa humana.

Tudo deve estar unido e organizado. Todos têm de estar interdependentes, conectados e em recíproca cooperação, para que a pessoa humana, ao estabelecer e restabelecer relações progressivamente ajustadas à realidade total, caminhe para o seu desenvolvimento integral, saudável e maduro. Daqui surge a necessidade urgente do auto-conhecimento, da auto-compreensão e, consequentemente, com já foi referido.

Que se pretende afinal com tudo isto? Simplemente socializar este núcleo intrínseco da pessoa humana. Eis, a afirmação é minha, a primeira e a mais importante fase do percurso da socialização. E para quê esta primeira fase? Para a pessoa, ao ser lançada nas águas revoltas, encapeladas e conflituosas do meio social, trazer a este o bálsamo da paz.

Eu, colocado, então, dentro de mim, vou partir desta unidade, feita de verdade e de bondade, em recíproca cooperação, exigências palpitantes do nosso ser profundo, concreto e real. O mesmo será dizer que os pensamentos racional e sentimental, conectados e interdependentes, têm de viver em recíproca cooperação para o bem da pessoa.

Afinal, que esperamos do pensamento racional? Que nos dê, sem rodeios, toda a verdade objectiva, esteja ela onde estiver. E que esperamos também do pensamento sentimental? Que nos forneça, sem mentiras, arbitrariedades e relativismos, toda a verdade subjectiva.

Qual é a verdade subjectiva da experiência pessoal? Ei-la (segundo os desejos potenciais do nosso ser profundo): compreensão, ternura, piedade, perdão, amizade, ousadia na protecção e medo, como força inibidora de tudo o que para nós é negativo. E toda esta verdade nasce em mim e para mim. E, fortalecida em mim, é para o outro.

Mas agora, neste contexto de mim para o outro, amigo leitor, parece levantar-se, como as ameaçadoras nuvens de trovoada, um conflito interno. Perdoar-lhe, como? Se é verdade que me ofendeu, maltratou, prejudicou, humilhou. Como conciliar, então, esta verdade com a bondade do perdão, da ternura, da amizade? Como conectá-las e vivê-las em recíproca cooperação? Parece rondar aqui o contra-senso. Contudo, meu amigo, este contra-senso está indelevelmente cingido por uma dimensão Divina. E a confirmá-lo está toda a vida de Cristo.

O homem é o único ser do Mundo, creio eu, que se encontra entre estas duas dimensões objectivas, reais e incentivantes: a dimensão para a animalidade, para a violência, agressão, terror e a dimensão para o Divino.

Ressalta, agora, a questão pertinente da escolha e da determinação entre as duas. É aqui, segundo me parece, para a nossa futura orientação (paz e sossego) que se deve cimentar todo o processo de socialização intrínseca da pessoa humana.




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