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Vem aí a lei da rolha?

Só merece o mando quem souber mandar. Santana Lopes não ficará isento, com mais este escândalo, se não agir imediatamente, demitindo o ministro

N/D
11 Out 2004

A intervenção do ministro dos assuntos parlamentares, Rui Gomes da Silva, a respeito dos comentários do professor Marcelo Rebelo de Sousa, aos Domingos, na TVI, é assustadoramente abusiva e anticonstitucional.
Era o que mais faltava que se coarctasse a livre expressão de alguém só porque o seu pensamento e as suas palavras eram contrárias ao pensamento e às acções do governo. A liberdade de expressão só incomoda os ditadores porque em democracia deverá ser sempre encarada como direito à diferença. E esse direito gozava-o em plenitude o professor Marcelo. Era notória a crescente animosidade ao governo de Santana Lopes. Para Marcelo Rebelo de Sousa o governo já não prestava mesmo antes de começar a governar. Nem o comentador lhe deu o benefício da dúvida.

O país ouvia o professor com atenção; nós mesmos escutávamo-lo descontando-lhe os exageros da tendência. Mas seja como for, nada, mas mesmo nada justifica, a intervenção de Rui Gomes da Silva; a pressão que tentou fazer sobre uma televisão privada é, na essência, a matriz dum atropelo anticonstitucional.

A demissão de Marcelo Rebelo de Sousa foi de livre e espontânea vontade, segundo as declarações de Miguel Paes da Silva, o senhor TVI. Se assim foi, e nada nos leva a crer que tivesse sido doutra maneira, embora a suspeita seja revestida doutras razões, o professor de direito criou um facto político com intenção bem clara: colocar no governo de Santa Lopes o esti-gma do regresso à censura, a chamada lei da rolha, de cuja memória nos lembramos sem saudades e com repúdio de regresso.

Se Marcelo se deixou melindrar pelas palavras do ministro dos assuntos parlamentares, ao ponto de amuar e sair, então o ministro ganhou a dele, silenciando uma voz incómoda para o governo.

Ganhou Gomes da Silva, perdeu Marcelo Rebelo de Sousa. Se foi simplesmente este o motivo, Marcelo Rebelo de Sousa não demonstra ter estofo de figura pública para ser o que é, e o que é apenas o deve a sua inteligência que não à possibilidade do contraditória.

Se Marcelo quis arrastar com a sua queda, a queda do governo de Santana Lopes, pelo aproveitamento das desastradas palavras do ministro, então esta inteligência, que a todos tem parecido límpida, é maquiavélica e revela uma mente conspirativa rebuscada. O culpado foi o ministro ao abrir esta brecha que o coloca mal a ele e deixa em apuros o governo e só tem uma saída, é sair.

Aliás, o primeiro ministro, que tão em baixo anda no conceito generalizado dos portugueses, deveria demiti-lo de imediato, mostrando que há quem mande no governo. Só merece o mando quem souber mandar. Santana Lopes não ficará isento, com mais este escândalo, se não agir imediatamente, demitindo o ministro.

Os melhores frutos são sempre os que amadurecem em cima da árvore e não os que se apanham do chão. Outro apontamento é a hipotética saída de Sousa Tavares, também como comentador da TVI.

Outro aproveitamento e outra manobra de derrube do actual governo, ou um reforçar da ideia de que sempre há na TVI, alguma censura sobre os comentadores de opinião?

A ver vamos como isto evolui. Uma coisa é preciso saber com verdade: Marcelo calou-se ou calaram-no? Paes do Amaral pressionou ou foi pressionado? A lei da rolha vem ou só ensaiou o seu regresso?




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