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Estertor da “classe média”…

Nos últimos tempos tem-se ouvido múltiplas referências à “classe média”: vítima do agravamento da carga fiscal, castigada pelas condições de vida, explorada por quem governa e defendida por quem está na oposição – mas facilmente esquecida quando esta atinge o poder – pela denúncia acusatória, espremida quando se acerca dos cuidados de saúde, penalizada nos cortes ao abono de família, atingida pela actualização das rendas à habitação, coarctada pelo aumento dos transportes… num diagnóstico tão sombrio neste Portugal em que se agravam as assimetrias sociais, culturais e económicas.

N/D
11 Out 2004

Como se define, então, a “classe média”? Preferindo a descrição a uma rigorosa definição, poderemos dizer que a “classe média” tem as seguintes características: emprego estável, rendimento médio mensal superior a mil euros, automóvel próprio, poucos filhos (um ou dois), pode passar férias, investe na educação dos filhos até ao ensino superior, vota (tendencialmente) em partidos do centro político… e será, no nosso país, cerca de setenta por cento da população.

Diante de tal quadro será que temos capacidade/discernimento para entender o estertor da “classe média” em comparação com o fausto de certos novos ricos, que se dão ao luxo de irem passar férias para Cuba, República Dominicana, Brasil ou México, sem se aperceberem quão ofensiva é essa arrogância? Certo proteccionismo aos mais pobres não (já) soa a eleitoralismo? Tanto fervor anti-capitalista patente na luta às regalias fiscais é sincero ou tenta camuflar – mesmo ao nível do actual governo – algum pendor socializante de baixa duração?

Ao nível eclesial nota-se que não tem havido grande capacidade de cativar os mais ricos e os muito pobres: estes lá recolhem a ração de caridade, mesmo que cuspindo na mão de quem lhes presta solidariedade; aqueles tentam comprar com esmolas de circunstância algumas instituições reclamando – em certos casos ainda a descobrir! – recibos para além do que foi oferecido.

Quando por essa Europa fora começam a fechar obras sociais de grande alcance, muitas delas ligadas à Igreja (católica ou protestante), teremos de mudar o rumo das nossas acções de pastoral, deixando ao Estado a incumbência de fazer o que lhe compete e investindo mais as nossas forças na evangelização da classe média, muitas vezes ávida de valores, carente de conhecer a verdadeira Palavra de Deus e capaz de corresponder aos desafios dos novos tempos… onde o diálogo cultural de gerações se faz no contexto da família, na abertura aos meios de comunicação social e influenciados por sinais de voluntariado e sensibilização aos mais desfavorecidos do que eles.

Será que a Igreja Católica irá prosseguir a saga dos sectores já perdidos ou em vias de capitulação: depois dos intelectuais, dos jovens, das mulheres, será a vez da classe média? Está na hora de acordarmos do sono!




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