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Sai Marcelo, entra Avelino

Há, sobre a censura, uma extensa bibliografia. Obras antigas e recentes falam dessa inclinação tão comum em Portugal e no mundo para querer o silêncio dos que dizem o que pouco ou nada agrada.

N/D
10 Out 2004

Há diferentes modos de tentar e, tantas vezes, de conseguir calar e há distintas consequências para quem resiste à imposição de emudecimentos.
Sobre a censura, disse Alexandre Herculano que onde quer que ela apareça, «onde quer que se aninhe esta irmã gémea da Inquisição, há uma quebra nos foros da independência do homem, há uma insolência do passado contra a dignidade social da geração presente».

O país conhece mal a história da censura. Recorda-se, talvez, do que ocorria antes do 25 de Abril, sabe vagamente o que se passa na Madeira e pouco mais.

O certo é que não faltam hoje, como não faltaram ontem, censores mais ou menos bem sucedidos e quem escreve em jornais reconhece-os rapidamente.

Há muito pouco tempo e para citar um caso pessoal – perdoe-se-me a imodéstia -, um administrador de uma empresa da região endereçou uma carta a um jornal em que colaboro para, entre outros dislates, dar conta do que se percebe ser um lamento por não haver quem policie (sic) os meus textos.

Há formas toscas e subtis de fazer censura. Uma gestão criteriosa dos anúncios, colocando-os ou retirando-os em função do que é dito sobre o anunciante; a compra de jornalistas (alguns estão apenas à espera de um lance para se deixarem arrematar) ou a intimidação, mais ou menos velada, são formas toscas – mas não desprovidas de eficácia – de condicionar os meios de comunicação social.

As formas mais subtis não deixam rasto pois os próprios jornalistas se encarregam de se autocensurar.

“A forma moderna e democrática que adopta a censura não se baseia na supressão de informação, mas no seu excesso”, sustenta Ignacio Ramonet, director do “Le Monde Diplomatique”.

“Estar sobreinformado é como estar mal informado”, considera o escritor e Prémio Nobel da Paz Élie Wiesel.

Quando se tem informação a mais, não se sabe o que fazer com ela. A sobreinformação faz perder o sentido da realidade, diz Ramonet. A sobreinformação gera indiferença, observa Wiesel.

Antes de ambos, já Neil Postman, que foi director do Departamento de Artes e Ciências da Comunicação da Universidade de Nova Iorque, tinha sustentado que a informação se tornou «uma forma de lixo, não apenas incapaz de responder às mais fundamentais questões humanas, mas praticamente inútil em fornecer uma orientação coerente à solução de simples problemas vulgares».

A árvore genealógica da crítica do jornalismo tem, entre as suas figuras mais emblemáticas, Karl Kraus, que, no início do séc. XX, afirmava que «a censura pode reprimir a verdade durante algum tempo, tirando-lhe a palavra. O jornal reprime a verdade durante muito tempo, dando-lhe palavras».

Olhando para determinados meios de comunicação social, percebe-se facilmente que o que provocatoriamente disse o escritor austríaco pode não ser inteiramente absurdo.

O caso Marcelo Rebelo de Sousa veio agora, de um modo assaz eloquente, relembrar que a comunicação social é, para muitos, não apenas um negócio, mas, sobretudo, um instrumento para melhorar os negócios (é, aliás, muito curioso verificar que, num momento em que tantos empresários se manifestam contra o Estado, seja à custa dele que fazem tantos negócios).

Para esses, um jornal, uma rádio e uma televisão não são um projecto de comunicação social, mas uma megaloja dos 300.

Uma megaloja dos 300 ou um negócio bem mais sofisticado, como o que descreveu Patrick Le Lay, presidente da TF1, no livro “Les dirigeants face au changement”: “No essencial, o papel de TF1, é de ajudar a Coca-Cola, por exemplo, a vender o seu produto.

Ora, para que uma mensagem publicitária seja captada, é preciso que o cérebro do telespectador esteja disponível. As nossas emissões têm como vocação torná-lo disponível: ou seja, diverti-lo, descontraí-lo, para o preparar entre duas mensagens. O que nós vendemos à Coca-Cola, é tempo cerebral disponível”.

Em Portugal, é provável que o tempo cerebral, que um canal disponibiliza sem Marcelo Rebelo de Sousa, mas com a exibição de um presidente de Câmara Municipal em cuecas, não seja para vender à Coca-Cola.




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