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Produtos do egoísmo

Não sei onde isto vai parar (dizia-me, há dias, uma médica dentista polaca, já formada e radicada profissionalmente em Lisboa).

N/D
9 Out 2004

Ontem, o meu filho (pelos vistos, ainda um miúdo) chega a casa, atira com o telemóvel para cima da mesa e diz-me:
– Mãe, eu não quero mais isto. Este telemóvel é piroso, não presta. Quero um igual ao dos meus amigos, com câmara de filmar e mais jogos.

– Não presta? Então para que é que serve um telemóvel? Não é para falar e ouvir falar? Jogos para brincar já tens muitos aqui em casa.

– Mas os meus colegas todos têm um telemóvel com câmara de filmar e com muitos jogos. E eu também quero um como o deles. Não quero este telemóvel piroso…

– Olha, filho, cada um tem o que pode. Se eu vir uma pessoa na rua com um fato bonito não vou logo a correr comprar um igual ao dela… Tenho primeiro de pensar se posso comprá-lo, se vale a pena comprá-lo”.

E desabafava:

“Esta gente de agora quer tudo já, nem sabe os sacrifícios que muitos pais têm que fazer para que eles tenham essas coisas todas. Isto não pode ser. Os pais têm que lhes dizer a verdade da vida, que não está assim tão fácil. E não ceder a todos os seus desejos”.

É certo que não se pode ser pessimista em relação à nova geração só por ela ser diferente nem se pode generalizar tudo, mas que esta jovem mãe polaca tem razão, disso não há dúvida.

Passados mais de 30 anos, parece que ainda se vive na euforia idealista de exigir tudo já e gozar tudo já. Para se compensar das dificuldades por que passaram, muitos pais, depois do 25 de Abril, sacrificaram-se para dar aos filhos aquilo que eles não puderam ter.

Enquanto eles trabalhavam, os filhos, já bem matulões, convenceram-se que a vida é uma diversão apenas para se gozar. Estudar? Trabalhar?

Vamos mas é curtir a vida (basta ir a um supermercado ou a outro lugar de encontro semelhante e ver os bandos de jovens que por lá matam o tempo). Aprenderam a exigir, mas não a lutar pelas coisas que desejavam.

Ao princípio, os pais até achavam graça. Sentiam-se socialmente bem vistos por darem todos os luxos aos filhos.

A bem dizer, os filhos nem sabem o que é desejar uma coisa porque, ainda crianças, os pais os inundaram de brinquedos antes mesmo que eles manifestassem o desejo de os ter.

Os filhos ficaram privados dessa enriquecedora experiência humana que é aprender a lutar por aquilo que se deseja e, mais tarde, a lutar por ideais na vida Como não passaram por essa experiência, também não sabem dar valor às coisas.

Usam, estragam, deitam fora e exigem uma nova. Mais tarde, quando já não têm os pais a quem exigir, transferem essa exigência para o Governo, sem pensarem que o Governo só nos pode dar daquilo que nos vem buscar ao que já ganhamos. Criou-se uma cultura de exigir e de subsídios.

Como é pelo empenhamento pessoal e pela solidariedade que tudo se vai conseguindo e é nesta relação do dia a dia na família que construímos os laços afectivos que unem as gerações, eles, que cresceram sob o signo do egoísmo, são dos que acham que, quando os pais forem velhos, não estão para tratar deles e põem-nos num Lar de Idosos. É o produto do egoísmo em que cresceram.

Fiquei chocado quando, há dias, uma mãe que fez todos os sacrifícios para que a filha pudesse ir tirar um curso fora de Lisboa, porque não conseguiu entrar aqui, me dizia, a chorar, que ela lhe diz de caras que a põe num Lar quando for velha, porque não tem paciência nem tempo para cuidar dela.

A médica dentista, de origem polaca, dizia que na terra dela não se fala em Lares de idosos.

Os mais velhos não são ex-cluídos da família E estava muito escandalizada porque um casal amigo deles, que vive em Lisboa, numa casa muito grande, pôs os pais num lar, apesar de ter metade da casa vazia.

Que não estavam para tomar conta deles.

Mas, o problema não é só em Lisboa, embora aqui talvez seja mais acentuado por causa da sobrepopulação e da perda de raízes afectivas e de valores dos que para cá emigraram e dos que crescem sozinhos, com os pais ausentes o dia todo.

Passando pelo interior, reparei que era lugar comum por essas terras fora ver três tipos de anúncios: campos de jogos, discotecas e Lares de idosos.

A diversão e o prazer e a ausência egoísta de solidariedade para com os mais velhos de quem receberam na vida.

Nesta onda de egoísmo social, o negócio dos Lares de idosos vai crescendo.

Todos sabem que, desde que o idoso é despejado no Lar, sente que lhe morrem os laços afectivos com a família, perde a alegria de viver, entra em depressão, diminuem as defesas do organismo e sobrevêm mais facilmente as doenças, espera tristemente: que venha depressa o dia da morte porque deixou de ter razões afectivas para viver.

Os Lares de idosos, para além de representarem a quebra de afecto e solidariedade filial, são uma espécie de depósito de sucata humana, à margem dos que podem continuar a gozar a vida para que os não estorvem.

Um triste sintoma cultural e social, que envolve muitas vertentes pessoais e sociais.

É urgente repensar a sociedade.
Ninguém pode acudir a esta crise de valores que varre a nossa sociedade a não ser nós, cada um de nós, todos nós, criando uma consciência colectiva de que é preciso humanizar a sociedade e as suas condições de vida. É preciso fazê-lo. É urgente fazê-lo. Se não, todos pagaremos por isso.




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