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A indiferença como forma de vida

Nos últimos anos temos vindo a assistir a uma mudança radical de comportamentos. Na fúria de tudo transformar caímos no conformismo e na indiferença perante os problemas da sociedade em que vivemos.

N/D
9 Out 2004

A despolitização, o abandono das responsabilidades cívicas, a fuga para o privado são o resultado do cepticismo que se apoderou do mundo relativamente às possibilidades de reformas.
A exaltação da liberdade que foi apanágio dos anos 60 na Europa, com as suas exigências bem marcadas, levava à oposição às maiorias dominantes e revestia-se, em muitos casos, de grande militância.

Actualmente os senhores do mundo procuram somente a normalidade social, defendem o equilíbrio e a eficácia, com a maior das passividades.

Esta mudança deve-se, em parte, ao facto de ter havido uma substituição da revolução social pelo bem-estar individual e da política pela farmacopeia.

Daniel Innererity conta que ao passar num corredor da Universidade viu, no lugar onde antigamente se afixavam os anúncios exortando ao combate ao comunismo ou ao capitalismo, conforme as ideologias, a propaganda a um livro intitulado “Manual para combater o stress”.

Isto é paradoxal, uma vez que a combatividade de outros tempos deu lugar a actuações amorfas e caducas.

Realmente, as atitudes revolucionárias mudaram muito: do punho cerrado passou-se ao preservativo; do assalto ao poder passou-se do assalto às farmácias; da sociologia passou-se à psicologia; da fábrica passou-se ao consultório médico; a opressão deu lugar à depressão; Sade veio substituir Marx e Lenine viu-se ultrapassado por Freud.

A preocupação actual não é combater a ordem social injusta, mas procurar tão só o próprio equilíbrio emocional ameaçado. A emancipação deu lugar ao desejo de cada um pensar só em si mesmo – é uma forma de narcisismo.

O mesmo entusiasmo com que um empresário reivindicava a posse da sua empresa é agora posto na defesa da liberdade do próprio corpo.

Os preservativos já deixaram de ter um aspecto provocador; a literatura erótica, que substituiu os livros de carácter sociopolítico, aparece apenas com ar de subversão – tudo passou a ter laivos de acomodação.

O “encolher de ombros” e o “já não vale a pena” são atitudes correntes, sobretudo entre os jovens que parecem “velhos” pela sua falta de combatividade pelo que vale a pena.

Max Horkheimer, um neo-marxista dos anos 70, escreveu: «A morte do amor erótico será o preço que teremos de pagar pelo uso da pílula contraceptiva».

Realmente, o sexo regulado pelos diferentes Ministérios, incluindo o Ministério da Educação, através de produtos farmacêuticos, torna-se um bem de consumo, uma mercadoria, pois pode ser planificado sem margem de erro.

Pelo contrário, o amor verdadeiro é o único que resiste a deixar-se manipular por planificações programadas. Se lhe dermos novamente a sua verdadeira e sublime expressão, seremos de novo integrados no mistério que envolve tudo que é humano.

Da indiferença voltaremos ao combate, não revolucionário e sangrento, mas ao combate pelo que dignifica a Vida e o Homem, sendo fonte de alegria e autêntico bem-estar, acabando de vez com a apatia.




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