Fotografia:
A Quinta de Avelino

A sua exibição na Quinta será trabalho político, como o dos deputados que faltam a sessões parlamentares para assistir a jogos internacionais do Futebol Clube do Porto? Terá dado alguma explicação aos eleitores, bem como ao partido a que pertence e pelo qual foi eleito?

N/D
8 Out 2004

O que leva alguém a meter-se num programa de televisão como a “Quinta das Celebridades” é um mistério do foro íntimo que só o próprio pode esclarecer. Se quiser, evidentemente. Cada um lá terá a sua motivação particular e o seu objectivo específico. Mas no naipe de concorrentes que a TVI começou a exibir no domingo, encontram-se pessoas que não precisam de dizer nada para compreendermos sem dificuldade as razões que ali as levam.
A base comum a todas é uma atracção irresistível pelo exibicionismo. Mas se nuns casos esse exibicionismo se afigura quase patológico e noutros meramente instrumental, há quem faça dele um modo de vida em festas e outros eventos sociais, ou quem, tendo uma profissão com projecção pública, entenda que a notoriedade a qualquer preço é um auxiliar rendoso – temos pelo menos um concorrente que não se enquadra bem neste registo: o presidente da Câmara de Marco de Canavezes.

É a primeira vez que um político aparece num programa deste tipo. E embora não se trate de um político qualquer, mas de alguém que se tem distinguido pelos piores motivos no exercício do poder local, não deixa de ser um dirigente histórico do CDS/PP, eleito em sucessivos mandatos para presidir à Câmara de Marco de Canavezes.

Que vá mostrar-se em cuecas ao lado de outras “celebridades” mediáticas é um passo mais na degradação da sua própria imagem, bem como do cargo para que foi eleito. E que tenha claques de apoio, se não mesmo a compreensão e o aplauso de muitos dos seus eleitores, é um sinal ainda mais preocupante da força que o lado rasca do país vai assumindo e da baixa conta em que ele tem os agentes políticos.

Cada um passa férias onde quer e pode. Foi com essa justificação que o autarca do Marco se dispôs a tirar três meses ao exercício das suas funções, se ficar até ao fim, abandonando o cargo para que foi eleito. Com que base legal? Além do período normal de férias, será que o estatuto de autarca lhe permite gozar três meses extra?

E com que fundamento? A sua exibição na Quinta será trabalho político, como o dos deputados que faltam a sessões parlamentares para assistir a jogos internacionais do Futebol Clube do Porto? Terá dado alguma explicação aos eleitores, bem como ao partido a que pertence e pelo qual foi eleito? E, já agora, o que pensará o CDS/PP da iniciativa do seu autarca do Marco? Não tem nada a dizer? Tenciona torcer por ele?

Votará para que não seja expulso e ganhe os euros do prémio que a TVI tem para o vencedor? Os próximos tempos talvez dêem resposta a algumas destas perguntas, que os jornais não deixarão de formular.

Há menos de dois meses, houve notícia de um ex-concorrente do “Big Brother”, que veio do anonimato de uma vida modesta em Barrancos e chegou em poucos meses aos píncaros da fama, tanto na imprensa da especialidade como em outros carnavais. Sofre agora de graves perturbações que já o levaram à beira do suicídio.

A fama fácil, ou aquilo a que hoje chamamos mediatismo – uma “celebridade” mediática é alguém conhecido por ser conhecido e não forçosamente por ter feito alguma coisa que mereça a admiração ou o reconhecimento público – tornou-se uma droga que provoca ressacas de morte quando falta aos seus dependentes. Não deve ser o caso de nenhuma das “celebridades” que se instalaram na Quinta.

Todas elas, por uma razão ou por outra, estão habituadas aos holofotes e às “passerelles” do nosso pequeno mundo. Mas essa é mesmo a única marca que os distingue dos pobres Zés Marias de outros concursos.

O novo “big brother” da TVI foi concebido, como os demais, para estimular o “voyeurismo” e está talhado para ser, quer um êxito de audiências, quer um “jackpot” publicitário, como se pode ver a cada intervalo. Até agora, porém, não tem sido mais indigente e reles do que outros com grande audiência, ficando até bastante aquém, em mau gosto e grosseria, do nível de alguns com melhor imprensa, como é o caso do “Herman Sic”, por exemplo. Só vê quem quer, claro está. Mas o facto de tanta gente os ver é um incentivo à continuada produção de lixo.

Não há dúvida de que a televisão acompanha e acelera a degradação dos costumes e dos valores na sociedade, estimulando e premiando o mais rasca que ela produz. É da sua natureza. Por isso não existe a menor esperança de que, em especial as estações privadas generalistas, reduzidas a puro negócio, deixem de contribuir cada vez mais generosamente para a era do vazio em que vamos mergulhando.




Notícias relacionadas


Scroll Up