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O luar que esquecemos

1 Banho de luz Há poucos dias atrás, em fins de Setembro, desloquei-me de carro à Beira Interior, a tratar de assuntos que me interessavam. Regressei já bastante tarde. Estava lua cheia, no céu seco daquela noite suave e tépida.

N/D
7 Out 2004

Já houvera eu notado o luminoso disco muitos quilómetros atrás, quando as curvas da estrada me permitiam de vez em quando avistá-la por cima dum desses muitos cerros ou sobre o espaço vazio de um qualquer campo aberto.

Por volta das 23h00 parei para descansar num lugar quase deserto de gente, a cerca de uma légua de Castro Daire, aí uns cinco minutos depois de ter passado o acesso à aldeia donde é natural Valentim Loureiro, o mais famoso dos majores portugueses. Era uma zona de pinhal, com penedos, urze e giesta, vazado pelo intervalo dum caminho de terra, que logo junto ao asfalto fazia uma curva e começava a subir.

Esgotaram-se cinco minutos antes que passasse algum raro carro. Sai então para fora e pus-me a admirar o que via, luz, noite e silêncio; e o cheiro da Beira Alta no fim do Verão, as urzes, os pinheiros, a terra branco-amarelada do saibro daquele poético caminho, o mistério das sombras e da luz. E o silêncio.

Quando há um silêncio assim, acho que nunca nos sentimos sós. Sentimos que estamos acompanhados por esses outros seres, inanimados ou animados, as rochas, as montanhas, as árvores, as urzes, o próprio céu, as suas estrelas, os grilos, os pirilampos, alguma ave que pia à distância.

A luz destas luas-cheias nas noites quentes da serra parece leitosa. Penetra tudo. É como um banho branco e suave que só não clareia as sombras. Está por toda a parte onde não há sombras. Às vezes é tão forte que ainda se vê um pouco de verde dos pinheiros, numa tonalidade residual e acinzentada.

O luar parece que tudo “molha”, mas ao mesmo tempo percebe-se que não é assim, que pelo contrário o tempo está glo-riosamente morno e seco. Assim estava a noite da Beira Alta noutro dia, Deus mandara-a iluminar para quem quisesse e pudesse admirar o espectáculo. Foi meu privilégio aperceber-me…

2. Noites iluminadas

Uma vez, num artigo do “Jornal de Notícias”, lembro-me de ter falado dum luar que outrora vi no Kosovo, há bastantes anos, era eu ainda pequeno e viajava na parte de trás da “roulote” dos meus pais. Os caminhos de terra e as estradas infindáveis, montes e planícies, as árvores que bordejavam a estrada sempre a ficar mais pequenas e mais para trás; e aquela luz branca fantástica, saudosa, mágica que tudo envolvia no mistério dos tempos.

Dos tempos dos outros (dos jugoslavos e albaneses); mas luz essa que me era exposta assim, momentaneamente, para que a admirasse metro a metro, quilómetro a quilómetro, copa a copa, curva a curva, aldeia a aldeia, buraco a buraco de estrada…

Outro céu nocturno iluminado apenas pela Natureza, nesses tempos da minha infância, foi o de uma infindável trovoada de Verão, entre Génova e Savona, acompanhada por chuvas torrenciais e na qual a frequência de relâmpagos no vasto arco das montanhas da Ligúria era tal, que havia períodos de três a cinco segundos seguidos, em que se via quase como se fosse dia! Os carros circulavam na auto-estrada a velocidade reduzida e as preces a Santa Bárbara foram mais ou menos gerais.

Outra noite de luar, talvez a mais branca de todas que vi na minha vida, foi há poucos ano numa parte planáltica de Trás-os-Montes, nos limites da “Terra Quente”. Aí, a luz da lua era tão forte e de tal modo ampliada, reflectida, pelos fenos e saibros do solo, que quase parecia que era dia, quando de facto seriam dez horas duma noite de Verão…

3. “An oakie from Muskogee”

A mim e a boa parte dos leitores, todos nós “bichos de cidade”, não é dado senão muito raramente observar este tão grandioso quão discreto (mas sempre gratuito…) espectáculo da Natureza que é o luar. Os mais novos inclusive nem o conhecem, pois as ruas das cidades e das vilas onde eles vivem estão de tal modo iluminadas (para dissuadir os ladrões e encher os cofres da EDP) que mal se vêem as estrelas do céu, ofuscadas também pela publicidade omnipresente, pelos faróis dos carros e pelo pujante tricromatismo dos semáforos.

Tudo isto me lembra contudo aquela canção “country” do tempo da justa guerra americana do Viet Nam, em defesa dos seus amigos e aliados, no tão saudoso consulado de Richard Milhous Nixon e de seu sábio e ilustre conselheiro judeu-alemão, Henry Kissinger. “An oakie from Muskogee” tornou-se um clássico da América rural e conservadora, essa América que talvez um dia possa para bem do mundo renascer, nas suas tradições britânicas e norte-europeias.

Acompanhando uma melodia muito bonita e firme (mas algo triste e dolente) a letra da canção reprovava o modo de pensar e de trajar da cultura “hippy” e defendia as tradições e a ruralidade do povo americano dos campos, no caso, do estado de Oklahoma, onde “lightening is the biggest thrill of all”, onde «os relâmpagos são a maior emoção que existe».

Mas onde o luar não é de certeza mais belo que aquela luz com que nestas Espanhas a Lua molha com leite os penedos, os caminhos, os sobreiros, as urzes, as giestas e os pinheiros. Uma «luz que está e não está». E de que quase já nem nos lembramos, pobres objectos que somos, na nossa Civilização decadente…




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