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Uma questão de educação cívica

Quase não dava para acreditar; vínhamos subindo a Avenida da Liberdade e ouvíamos bem ainda lá longe os cânticos dos adeptos do Hearts, aquele clube escocês que deixou o nosso braguinha a olhar para o boneco. Boneco que deixa de ter o desenho do sorriso e virou bigodes abaixo.

N/D
6 Out 2004

Os cânticos recolhiam a expectativa do número dos cantantes e se de longe podíamos adivinhar a potência das gargantas não poderíamos abonar a afinação. Mas era dia de visitantes e por isso a tolerância era para a bonomia.
Quase não dava para acreditar no que víamos: a fonte luminosa, mais fonte do que luminosa, estava ornamentada por garrafas de cerveja no bordo que servia de assento e dentro da água, que mal parecia contente com a invasão; flutuavam no interior grades de cerveja, numa navegação sem motor mas cruzando as distâncias impulsionadas pelos braços tatuados dos homens dos saiotes.

E perguntávamos se aquilo era permitido, se a polícia iria deixar que em nossa casa, os ilustres visitantes, que de ilustres só pelo tamanho dos copos de cerveja, poderiam dar-se ao desfrute de emporcalhar o largo mais miolo de toda a nossa cidade? E a resposta veio pronta bem mais rápida que mail de internet: a polícia municipal e a de segurança pública vigiavam à distância, vigiava o quê? Não sei, mas estava ao largo como quem não quer chatices e deixa correr o mal não vá ele virar-se contra eles e borrarem-lhes as botas.

Quem me dera saber se os homens do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte fazem o mesmo em Aberdeen, Dundee, Edinburgh ou Glasgow? Certamente que não porque lá são pessoas normais, em ambiente normal e comportam-se civilizadamente, se é que se pode ser civilizado num sítio e bárbaro no outro? Aqui, vêm como conquistadores, arrotam como barris sem tampa, caminham de cabeça levantada como em terra mesquinha e depois festejam à bruta perante o olhar pacóvio dos que riem com eles e perante o medo dos agentes da autoridade ou em quem neles mandam e tudo determinam.

Mas não se ficaram pela fonte que não é luminosa que é apenas fonte porque jorra água e a isto se costuma chamar chafariz e não fonte, mas eles estavam deitados como bois no prado, em cima da relva dos jardins, outros refrescando os pés nos outros viveiros de água, feitos banheiras a despropósito da intenção para que foram criados, num desrespeito por quem pensou e construiu aquilo para ser outra coisa e ainda num despropósito de que estava em sua casa.

Uma questão de educação cívica e nada mais. Mas eles podem ser assim porque têm poder de compra. Que dirão ou farão as polícias, as municipais e as públicas, as que estavam à distância guardando prudências, se amanhã as claques do Benfica ou do Porto, ou do Sporting ou do Guimarães, se exibirem da mesma maneira? Vão proibir?

Não deixarão que eles façam cerco à fonte com garrafas vazias? Vão defender essa coisa que é mais chafariz do que o resto que lhe chamam, ou vão também ficar de longe a olhar para estes adeptos que são tão adeptos e tão visitantes como os dos saiotes, kilt para os mais puros e sabidos linguistas cá do burgo, ou vão cair em cima deles, impondo a lei pela proibição como quem bate no pequeno por falta de coragem para bater no grande, grande? Donde lhes vem, aos do saiote, essa grandeza, têm-na ou fomos nós que lha demos?




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