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Algumas lições do Dr. Rocha Peixoto

Foi a sepultar no dia 27 de Setembro, dia litúrgico consagrado a São Vicente de Paulo, o médico Dr. Manuel Bento Rocha Peixoto, um autêntico vicentino dos doentes.

N/D
6 Out 2004

A sua morte, após longa doença, comoveu os amigos e marcou profundamente a esposa, filhas e demais família.

Médico atento, responsável e amigo do doente, atendia-o com o sorriso espontâneo e natural, reconfortando-o. E foram mais de 12 os anos que o Dr. Rocha Peixoto viveu atingido ele mesmo fortemente pela doença que, além da mobilidade física, lhe retirou aquilo de que mais gostava: o prazer de falar e conversar.

Todavia, nunca se lamentou e muito menos se revoltou. Pelo contrário, era ele quem, aos que o visitavam, apesar das evidentes limitações físicas, animava e fazia rir. Essa é talvez a maior lição que nos deixa: não sucumbir às enormes dificuldades que a vida lhe apresentou, procurando mesmo um sentido positivo no meio das enormes contrariedades.

Desde jovem viveu a sua profissão a cuidar dos doentes, a acompanhá-los no sofrimento, a dispô-los para as horas difíceis que a doença, por vezes, comporta.

Tinha em seu pai, também médico, um óptimo exemplo de competência e dedicação que soube imitar na perfeição e até superar na maneira como encarou a própria doença. Ambos tinham um zelo profundo pelo doente, o que os levava a servirem-no com todo o carinho e sacrifício.

O Dr. Rocha Peixoto sabia, desde os dois anos, o que era o sofrimento. Talvez por isso mesmo, para ele, o doente estava acima de tudo e antes de tudo. Foi um servidor do próximo e um abnegado, sacrificado à causa que o levava a cuidar dos doentes, esquecendo-se, muitas vezes, das necessidades económicas que muitas vezes enfrentava na sua vida de família.

A quase todos os doentes que atendia não levava honorários, mesmo quando muitos faziam questão de lhe lembrar que ele também tinha despesas e precisava de recursos financeiros para viver de acordo com a sua condição de médico. Privou-se de muitas coisas a que teria legítimo direito para servir abnegadamente os «seus doentes». Foi um dos casos raros em medicina, na cidade e no País.

Era um desprendido no plano financeiro. Para ele, só contava o doente e a vontade forte e sacrificada de o tratar. Tendo uma boa clientela, não só não enriqueceu, como viveu com dificuldades que não é comum encontrar num lar de médico. Mas contou sempre com a compreensão e apoio da esposa e filhas.

Desprendido, no plano financeiro, e sacrificado pelo doente no campo do trabalho, o Dr. Rocha Peixoto foi um óptimo exemplar da dedicação ao doente e do carinho com que se deve envolver o doente na hora da dor e do sofrimento. Não caía na consulta fria e seca, mas sabia transmitir con-fiança e acarinhar quem, perante a doença, se sente sumamente desprotegido e necessitado de franca e sincera amizade.

Não temos dúvidas de que a saúde estaria incomparavelmente melhor se a grande maioria dos médicos tivesse a dedicação que o Dr. Rocha Peixoto tinha pelo doente. E gastar-se-iam muitos menos milhões de contos, quer por parte do estado, quer por parte dos cidadãos, se o espírito de desprendimento fosse um décimo do que animava o saudoso extinto.

Há, porém, a lição maior a reter e a procurar imitar: a maneira sumamente digna como enfrentou os fortes achaques da doença de que foi acometido nos últimos doze anos e meio. Não só nunca se revoltou, como aceitou com enorme serenidade, sem queixumes, e com um permanente e sentido agradecimento àquela que de tudo abdicou para o acompanhar a cada momento: a sua esposa, Lúcia. Foi ela a enfermeira e a companheira de todas as horas, a governanta da casa, sem empregada doméstica, que, ao fim deste tempo todo, nunca desabafou que estava cansada. Só pelo verdadeiro Amor que ambos nutriam um pelo outro e pelas duas filhas se pode compreender esta entrega.

Não temos dúvidas. O mundo seria muito melhor com pessoas assim! Obrigado a ambos pelos magníficos exemplos que nos deram.

Permitam-nos que, a terminar, servindo-nos com certa liberdade do que se refere no Evangelho, imaginemos o diálogo que o bom Deus terá tido com o Dr. Manuel Rocha Peixoto:

– Vem, bendito de meu Pai, receber o Reino para ti preparado. Porque tive fome, e deste-me de comer… estava doente e atendeste-me, interessaste-te e curaste-me…

– Quando, Senhor, se eu nunca Te encontrei?

– Como não? Sempre que atendeste com carinho os doentes, foi a Mim próprio que o fizeste! Entra a possuir o Reino que tão merecidamente conquistaste.

– Ó Senhor, mas eu não sou digno…

– Mais uma prova Me dás da tua dignidade e sentido cristão. Entra! Contigo, o Céu será ainda mais alegre!!!




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