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O rotativismo

Já se diz, voz do povo, que os políticos fazem dos lugares da governação meros trampolins para ascenderem, depois, aos lugares de administração de institutos ou empresas públicas. São sempre presidentes de alguma coisa

N/D
4 Out 2004

Até pode parecer que estamos de pé atrás com Bagão Félix, mas não é assim. Quando emitimos a nossa opinião faze-mo-lo sempre no âmbito dos princípios que defendemos e nunca pessoalizamos as acções, ou nos movemos por simpatias ou antipatias. Até se esse fosse o caso, alguma simpatia sobrou do tempo em que Bagão Félix foi ministro da Segurança Social, no governo de Durão Barroso.

Na verdade, a colocação de Celeste Cardona na Caixa Geral de Depósitos é obscena politicamente, principalmente pela imagem de compadrio que daí se colhe. Não estão em causa, nem a capacidade de Celeste Cardona para o cargo, nem a sua preparação específica para o desempenho. Não estão em causa em sede deste julgamento porque não lhas conhecemos e podem até existir. O que choca, pelo clientelismo que
demonstra, é a sua indigitação rápida, quase sem deixar passar a “viuvez” do seu lugar de ministra, e a rotatividade de lugares: deputada, ministra, administradora.

Amanhã o quê? Existe aqui uma certa semelhança com o sistema rotativista de “pa-tronage” à francesa. Estas acções de compadrio são sinceramente falhas de escrúpulos e potenciam prepotência. Nepotismo? Também.

Os políticos desacreditam-se com estas coisas. Já se diz, voz do povo, que os políticos fazem dos lugares da governação meros trampolins para ascenderem, depois, aos lugares de administração de institutos ou empresas públicas. São sempre presidentes de alguma coisa. O que perderam como ministros ganham-no como administradores.

Não é no governo que se ganha dinheiro, é depois, continua a dizer o povo. E, ao que se vai vendo, tudo isto é verdade. É preciso entrar na rodinha que depois as oportunidades lá vão aparecendo, como convite de festa de amigos. À mesa do compadre a fatia mais gorda é para o afilhado. Ainda ninguém esqueceu a aposentação choruda de Mira Amaral e agora vem mais o caso de Celeste Cardona a lembrar como está amadurecida, nesta política, a ideia dos afilhados.

E, infelizmente, não é só neste governo! Sai um governo, entra outro e, apesar dos juramentos de firme propósito de emenda, nada muda na mesa do Orçamento de Estado. E quem sofre com isto? Todos aqueles que gostam do sistema político em que vivemos. A democracia sofre e temos o dever estrito de a defender em qualquer circunstância que a vejamos ser atacada.

Os poderosos não gostam da democracia porque lhes cerceia o poder e vigiam as suas acções. Roda livre para eles, rédea curta para os outros. Os fracos não têm outra via para lhes barrar o caminho egoísta senão agregarem-se em democracia.

O que estamos a observar, com actos como estes, é que os poderosos de hoje tentam restaurar os de ontem. Havia abusos de poder, dantes? Pois havia e agora não os há?

E o que estamos assistindo, prefigura um regresso ao passado. Como uma doença silenciosa, os poderosos de hoje vão minando a seriedade dos actos de governação, corroendo com maus exemplos a moral profunda do sentimento democrático português.

Não faltarão quem os queira imitar; dez réis de gente tentará ser ditador. E, se o deixarmos, ele poderá ser rei. Esta predisposição para dominar o outro existe porque sempre existiu na alma de cada indivíduo. Se as ocasiões lhe forem propiciadas ela acorda da hibernação e tornar-se-á opressiva.

Moralizar a governação é, pois, valorizar a democracia. É preciso não afrouxar nesta moralização mas com nomeações como esta e com aposentações como aquela o caminho é pouco promissor.




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