Fotografia:
Chocolate com pimenta

Não sou espectador habitual das telenovelas que passam nos nossos canais de televisão mas, nos últimos tempos, tenho-me divertido a seguir a “Chocolate com pimenta” que passou na SIC.

N/D
3 Out 2004

Faz a recreação do ambiente de uma cidadezinha de interior do Brasil, nos idos anos 30. A ficção e a paródia exorbitam, mas o bom desempenho dos actores, a beleza dos cenários naturais que constantemente são passados, o claro bom humor e a abundante imaginação enquadram muito bem as figuras humanas que se desenham ao longo da telenovela.
Desenho a grandes traços de personalidades, imaturas na sua grande parte, de emoções, de paixões, de procedimentos cuja espontaneidade quase parecem em roda livre. Comportar-se com racionalidade e com regras é significativamente muito pouco frequente.

Expõe-se ali toda a realidade dum trajecto sociológico que nos é bem familiar, porquanto, geneticamente, todas aquelas figuras teriam um ADN muito semelhante ao nosso, dos portugueses deste século XXI.

Desde os que interiorizam ter nascido com estatuto que os isenta de trabalhar até aos que se humilham até ao inverosímil porque não vêem alternativa, desde os investidos em autoridade por um poder ausente até aos eleitos sabe-se lá como, desde a sovinice estremada até à escroqueria, é todo um mundo falado em português, só que mesclado com um pouquinho de “crioulo”.

Europeus, africanos e mestiços. Ausentes os descendentes dos índios que povoavam o Brasil, quando lá chegámos. Um quadro que pode produzir facilmente julgamentos negativos.
Pedíssemos um comentário ao Francisco Louçã ou a um qualquer intelectual de esquerda…

«Iliteracia manifesta dos descendentes dos colonialistas, testemunhos da execrável escravatura que foi praticada pelos portugueses, da expulsão e extermínio dos índios, a hipocrisia dos comportamentos institucionalmente cristãos, as manchas bem aparentes de uma administração desregulada e displicente, herdeira dos vícios do colonialismo, etc., etc.»

Aquelas figuras humanas da telenovela, sociologicamente são-nos de facto familiares. Não são aqueles que regressaram a Portugal e construíram “casas de brasileiros”. São os descendentes daqueles que nunca conseguiram juntar dinheiro para regressar. Que deixaram de escrever para Portugal, que não conheceram os avós e não sabem que primos têm do outro lado do Atlântico.

As razões do baixo nível cultural dos povos que falam a nossa língua é também a razão da mediocridade da nossa “inteligência” que questiona a nossa história, que obstaculiza que seja contada e conhecida, que cria este ambiente que estamos vivendo, de quase haver que ter vergonha de ser português! Não vêem mais longe do que conseguem pelo seu pequeno postigo de longas portadas. É um pecado capital da nossa esquerda política.

Como podem admitir-se os tais juízos negativos? Pretendem contestar Deus que comanda o Universo e a sua história? Admitem que os autóctones se desenvolveriam autonomamente? Deveria ter-se dado alternativa a outros para fruir aqueles territórios? Excluir olimpicamente os africanos de entrar na aventura do continente americano?

Aquele “pequeno mundo” que falava o nosso idioma, que actuou naquele palco da vida, uma meia dúzia dos anos 30, perseguia a felicidade, como todos os seres humanos a conceptualizam, em todo o mundo, e em todos os tempos.

Aquele “pequeno mundo” que falava o nosso idioma é um pequeno fragmento da Grande Nação do continente americano, com mais de 160 milhões de homens, mulheres e crianças. E mais de 180 dioceses da Igreja Católica onde todos, muito bem, distinguem Portugal dos outros povos.

Nação que cresceu e se desenvolveu ao longo de cinco séculos à base do transplante contínuo, da sangria permanente dos rapazes das nossas aldeias e dos milhentos agentes do poder público destacados para servir e liderar no além-mar. E quanto mais se poderia sublinhar, tão pequenos e pobres que éramos e que somos, e que tanto justifica o grande país que, de facto, continuámos.

As vozes da esquerda, dos Franciscos Louçãs e quejandos, são a expressão da nossa anemia, ainda não corrigida, de alguma depressão anímica, talvez da baixa “estatura” de uma certa parte dos nossos compatriotas…




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