Fotografia:
A crise dos sectores tradicionais

Vivemos sempre muito de compensações. Como não programamos nada, e vivemos sempre a reboque de outros, o sector está em crise e cedemos facilmente direitos: até as bandeiras do Euro2004 foram fabricadas pelos chineses

N/D
1 Out 2004

O Norte de Portugal debate-se com novas crises, especialmente a região do Ave.

Depois de se investir forte no calçado e têxtil, sofremos a invasão de chineses em concorrência, e este sector aparece fragilizado. Mau grado salários, ainda bastante baixos, não fomos concorrenciais. Limitámo-nos a produzir, aliás com qualidade, para marcas estrangeiras e não criámos imagens de marca própria, com design lusitano, e agora sentimo-nos invadidos ou marginalizados. Os clientes dos tecidos tradicionais rumam para os novos países da União Europeia, com mão de obra mais barata e também qualidade na produção. O que fazer?!

Não bastou nem chega investir-se em turismo rural. Muitos dos fundos para reconversão de empresas foram desviados para esse sector, se bem que algumas são tecnologicamente avançadas. Hoje lamentámos que os estrangeiros, para quem produzíamos em marcas estrangeiras, tenham derivado para outros países… É que não tivemos capacidade para criar marcas próprias, ou não fomos suficientemente inteligentes e agressivos, para combatermos os preços com qualidade, e apostar em marcas nacionais.

Limitámo-nos a ser cadeias de transmissão de produtos estrangeiros, de que se fez pregão e publicidade. Mas pouco beneficiamos no sector: fizemos figura de cucos, ocupando o ninho feito por outros… Na verdade, nunca fomos bons negociantes, aproveitando todas as mais-valias, simples intermediários.

Há empresas tecnologicamente bem preparadas e com qualidade de excelência, embora outras medíocres terão de fechar as portas. Mesmo assim, umas e outras aparecem em crise, algumas forçadas a despedir pessoal, até pelas consequências de menos exportação com um euro sobrevalorizado, em relação ao dólar.

Vivemos sempre muito de compensações. Como não programamos nada, e vivemos sempre a reboque de outros, o sector está em crise e cedemos facilmente direitos: até as bandeiras do Euro2004 foram fabricadas pelos chineses.

No processo de globalização em curso, e com a crise mundial, teremos de produzir para classes médias e remediadas. Sofreremos ainda novas invasões e desafios. Como enfrentamos os que nos invadem? Valerá a pena dizer que temos bons produtos?

Onde está o marketing, publicidade e abertura para novos mercados, em que podem surgir novas potencialidades? Continuaremos a dormir e a sonhar, ou a dizer mal da União Europeia? Os desafios aí estão. Como nos preparámos para eles? Não basta o turismo nem a qualidade de algumas empresas que trabalham bem e exportam sem problemas. Não podemos ser apenas intermediários.

Temos de ser autónomos, conscientes do que produzimos, e agressivos nas vendas, impondo-nos tanto pela diferença como pela qualidade e nos preços. Faça-se prospecção de mercado e imite-se até. Não foi o que aprendemos? Para isso sejam reciclados os trabalhadores, aposte-se nos bons, com modernas técnicas de produção, variando e inovando produtos, como solidificando os tradicionais, mas reestruturados.

Na nova onda de capitalismo a que se assiste, não há contemplações, nem privilégios, se bem que as empresas que pagam os seus impostos deviam criar organismos que as defendam, em vez de abrirem balcões por todo o lado, mesmo na área de produção.

Associem-se em grupos e parcerias, façam-se joint-ventures com congéneres estrangeiras, busquem-se novos mercados e fidelizem-se os tradicionais, mesmo nas colónias, onde corremos o risco de perder também terreno. Criem-se nichos de mercado de marca nacional, em vez de se limitarem a encomendas de estrangeiros.

Alguns industriais portugueses apostam já em boutiques e lançam-se mesmo em abertura de mercados, com portugueses da segunda geração detentores das línguas dos países de acolhimento. Como os alugueres são caros, alguns compram com crédito bonificado bancário mais barato.

Estas foram algumas conclusões e ideias de uma reunião em Bona, na Federação de Empresários Portugueses, com a presença do senhor Embaixador de Portugal em Berlim e muitos industriais alemães, presentes em Leverkusen, na Bayer.

Como responder? Talvez seja o momento de investir e de nos lançarmos mais no exterior, com marca e patente nacional, usufruindo mesmo das potencialidades abertas.




Notícias relacionadas


Scroll Up