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O valor das promessas

Que valor redentor tem o cumprimento de certas promessas quando, quem as cumpre, não mexe uma palha para reatar a amizade com o vizinho com quem se não fala, ou um familiar com quem, já há muito, cortou as suas relações de convivência
e de amizade?

N/D
29 Set 2004

Há tempos veio uma senhora já de idade, talvez com oitenta anos, muito preocupada e angustiada, falar comigo sobre um assunto muito importante. O problema era, precisamente, o não cumprimento de uma promessa que um dia fizera, no meio da angústia e do desespero, a qual foi adiando, adiando e, agora, já não se sentia com forças para a cumprir. Comprometera-se ir a Fátima a pé e, agora, com os seus oitenta anos, já não se sentia com forças para o fazer. Entretanto, não desejaria morrer e levar esse peso na consciência para o outro mundo. «Foi um peso que me acompanhou sempre durante a vida», rematou a referida senhora.

São muitos os casos, como este, que já me apareceram pela vida fora. No próprio Santuário de Fátima já eu abordei várias pessoas que se arrastavam, aqui há anos, pelo tapete fora (antes era de cimento). Se não estou em erro, não fui bem sucedido na tentativa da comutação da dureza da promessa.

Sentir-se-ão bem as pessoas com esta espécie de masoquismo religioso?

Deu-me a impressão que o seu não cumprimento seria como que uma espécie de acicate, que permaneceria interiormente nelas e que as não deixaria viver em paz consigo próprias perante Deus ou Nossa Senhora.

Por aquilo que fui percebendo pela vida fora, um grande número de promessas são feitas em actos de desespero e angústia desumana. Perante isto, poderemos perguntar: onde está a liberdade do acto humano? Onde está o valor que é gerado na pressão que coarcta a liberdade interior?

Sempre considerei que qualquer acto, para ser meritório, tem de ser humano, e a primeira exigência é que tenha a marca da liberdade interior.

Muitas promessas, para além de revelarem falta de liberdade interior, para que se considerem actos plenamente humanos, são também marcas de certos desequilíbrios psicológicos e morais e ainda de mentalidade pouco evangelizada e libertadora.

De facto, Jesus Cristo começou a sua pregação com o «convertei-vos», mas esta conversão, sabemo-lo bem, aponta, antes de tudo, para a atitude interior de abertura a Deus e aos outros, a opção radical pela mensagem de Jesus. Diz mesmo que as penitências exteriores podem até não valer nada, ou melhor, podem até afastar mais de Deus, quando elas revelam um coração pervertido, exibição, e não nascem da verdadeira «conversão interior», ou não levam a ela. De facto, o fariseu saiu do templo com um pecado maior ainda, após ali ter feito a sua oração.

Basta recordar as cenas do fariseu e do publicano, da pobre que deu do pouco que tinha e do rico que deitou do que lhe sobrava, do jovem rico que preferiu as coisas materiais a seguir Jesus no seu desprendimento.

Aliás, Jesus Cristo disse também que tinha vindo para que todos tivessem a vida e a tivessem em abundância.

Dá-me a ideia que muitas penitências, sacrifícios, promessas que se fazem e procuram, ainda são fruto da visão redutora do nosso Deus, que só se acalma com o sofrimento e a penitência das suas criaturas. «Ide aprender o que significa: olhai que quero antes misericórdia (caridade) que sacrifício». E que valor redentor tem o cumprimento de certas promessas quando, quem as cumpre, não mexe uma palha para reatar a amizade com o vizinho com quem se não fala, ou um familiar com quem, já há muito, cortou as suas relações de convivência e de amizade?

Há penitências e promessas que humanamente parecem um absurdo e um contra-senso.

Revelarão bom senso, equilíbrio moral e espiritual, boa formação religiosa? Revelarão a consciência de que somos criados e partilhamos da bondade radical de Deus? (Deus disse que tudo era muito bom). Que tipo de religião revelam elas?

Sem dúvida que teremos todos de reflectir sobre tantas práticas religiosas, sobre os conceitos que temos ainda da religião (religião-comércio, religião do «dou para que me dês», religião do interesse) e a visão que temos de Deus, do Homem, das realidades espirituais e da visão do mundo e da História.

Será que para muita gente a “sua religião” ainda se confina a um conjunto de promessas que ciclicamente têm de fazer e cumprir? Pela maneira de falar e de se comportar, até parece que é mesmo assim.

Dá-me a impressão que vivem com uma mente escravizada e um coração preso. Será que Jesus Cristo nos redimiu para nos tornar escravos ou antes, pelo contrário, nos fazer pessoas livres? Basta ler São Paulo para concluirmos que foi para a liberdade que Cristo nos gerou.

Só na liberdade seremos salvos. Só em liberdade é que as promessas terão valor redentor.




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