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O efeito da economia de escala…

Os homens libertam-se pouco a pouco da brutalidade, quando de modo nenhum se procura intencionalmente conservá-los nela (Kant)

N/D
28 Set 2004

Mal inaugurada e logo ensanguentada como um holocausto de vítimas, a artéria que liga Guimarães a Paçô Vieira faz história entre as muitas que se contam deste povo.

Por isso saudada com muito entusiasmo, após um atraso incompreensível na sua execução, deixará marcas indeléveis no seu asfalto, como tipifica um caso exemplar do adiamento sucessivo de um país sem o menor respeito pelos seus consumidores ou utentes.

O que se diz das estradas poderia dizer-se das rendas de casa e suas leis, onde os proprietários quase não têm direitos, para se defenderem apenas os inquilinos, por um esquerdismo vesgo conservado só no que convém, ou como reminiscência vesga, traiçoeira ou em daltonismo diletante.

Mas a estrada tornou-se um calvário. Porquê?!…

Contra todas as expectativas e lógica, começa a ser afunilada, quando o perigo mais a espreita e é maior o fascínio deslumbrante da paisagem. Porque foi necessário negociar alguns direitos da Brisa e não houve capacidade para retomar o projecto a tempo, embora um dos mais belos cenários a ligar as terras de Egas Fafes, o seu brilho ficou a meio, e permitiu um conluio pelo desaparecimento da linha do caminho de ferro, por interesses outros, mas não para bem das populações.

Não conheço e adivinho as tricas de bastidores do processo, mas lamento profundamente que, como sempre, em nome de poupança, se atrofiem projectos, e, em vez de visões mais alargadas de excelência, se fique em obras medíocres, num tempo em que tudo se paga cada vez mais e com prejuízos acrescentados…

Não mereceriam mais respeito os automobilistas? Não temos sangue que chegue nas nossas estradas? Um benefício em melhores condições, nunca seria um óbice a prejudicar a auto-estrada futura. Apenas seria uma mais-valia a ter em conta a qualidade e o respeito pela vida das pessoas. Honra seja feita à engenharia, que em Paçô Vieira, com a paisagem de São Torcato, criou um dos enquadramentos mais belos desta região. Fiquei contente com o que vi, mas confrangido com o que soube. Ainda bem que as autoridades locais, e os políticos oriundos da região, já tomaram posição pública.

Estamos a celebrar o bicentenário da morte de Kant, um dos filósofos, com Nietzche, que mais impacto teve na mentalidade alemã. Em certos aspectos podia dar a impressão de um maníaco, envergando o seu fato cinzento e empunhando a sua bengala de Espanha, ou acompanhado de seu velho criado Lampe, sempre com a mesma precisão e regularidade no horário. No entanto, o “relógio” de Koenisberg – assim o trata Henri Heine – foi um trabalhador incansável, sempre atento e cioso de nunca dar a público um pensamento prematuro ou incompleto.

Por isso, a sua probidade intelectual foi sempre o traço dominante da sua personalidade, estudando o homem e a sua liberdade, sem peias, sempre crítico onde deveria ser. Cito apenas um dos seus princípios, a respeito do Iluminismo (Aufklärung), em que se fala do uso público e privado da razão, que vem muito a propósito: «O cidadão não pode recusar-se a pagar os impostos que lhe são exigidos; e uma censura impertinente de tais obrigações, se por ele devem ser cumpridas, poderia mesmo punir-se como um escândalo.

Mas, apesar disso, não age contra o dever de um cidadão se, como erudito, ele expõe as suas ideias contra a inconveniência ou injustiça de tais prescrições. Do mesmo modo, um clérigo está obrigado a ensinar os discípulos de catecismo e a sua comunidade em conformidade com o símbolo da Igreja, a cujo serviço se encontra, pois ele foi admitido com esta condição.

Mas, como erudito, tem plena liberdade e até missão de participar ao público todos os seus pensamentos cuidadosamente examinados e bem intencionados sobre o que há erróneo (ou pode haver) naquele símbolo, e as propostas para uma melhor regulamentação das matérias que dizem respeito a religião e à Igreja.

Quantas vezes mais parece que os guardiães, que começaram por bestializar o seu rebanho doméstico, velam para que a grande maioria das criaturas tenha medo de atingir a maioridade: mostram a essas eternas crianças o perigo que as ameaça quando tentam caminhar sozinhas…».

Antes, porém, escrevera que é difícil a cada homem desprender-se da menoridade, que para muitos se tornou quase uma segunda natureza. Até lhe ganhou amor e, por vezes, é incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se permitiu fazer uma tal tentativa, ou deixou-se na preguiça…

Não será esta forma de ver que se instalou em muitos, mesmo com responsabilidade?

Mas quem o diz não sou eu. Foi Emmanuel Kant…




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