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Chover no molhado (44)

Vimos que o pensamento racional, quando desconectado e incooperante com os pensamentos emocional e sentimental, cai na alienação. E como tal vem acompanhado deste séquito de males que polvilham o mundo social de temores, tremores e horrores. Aliena-se, pois, o que se separa do seu todo e, como consequência, deixa de ter o significado, o sentido e as funções que tinha.

N/D
28 Set 2004

O mesmo acontece com os pensamentos emocional e sentimental quando, desconectados e incooperantes com o pensamento racional, se afundam na alienação.

Agitam-se. São como labaredas crepitantes e agora murchas. Perturbam-se, desgovernam-se e, agarradas à crista da fantasia, vêem o mundo diferente daquilo que realmente é.

Até dizem que os anjos saem da espuma das ondas e que fazem omeletas sem ovos. Vêem nos ratos polícias. Dizem que os seus ondulados cabelos são feitos de fios de vento. E por aí adiante. O que acontece, porém, é caírem, à vista dos outros, no descrédito e na palhaçada. É preciso, pois, domesticá-los e corrigi-los. E como?

Vou, então, abrir um corredor entre mim, o outro e Deus. Quem diz o outro, pode igualmente dizer uma representação, um acontecimento social como o terrorismo, um pôr do sol flamejante, uma devastadora tempestade ou um pinhal ardendo em chamas. Vou pôr dentro deste corredor a sensação, emoção, o sentimento, a Razão e a minha atitude para com isto. Entre o sentimento e a atitude, vou pôr neste corredor, de pé e bem acordada, como sentinela alerta e vigilante, a razão livre e independente.

A sua função, emanada da autoridade e autonomia da pessoa, é autoconsciencializar-nos, a tempo inteiro, das tonalidades agradáveis ou desagradáveis de todos os sentires ou de todas as vivências intrínsecas.

A Razão, como autoridade participativa da autoridade da pessoa e, em harmonia com os seus sentires, leva-me ao conhecimento e compreensão como um todo, tanto do bom como do mau. Motiva-me e ajuda-me a gerir e controlar, passo a passo, as minhas atitudes.

Pede, mesmo envolvendo esforço e custo, que me liberte de tudo o que, embora fagueiro, agradável e apetitoso, impede a atitude de estabelecer relações, progressivamente ajustadas, realistas e amoráveis com a realidade total: eu, o outro, Deus, a natureza, o mundo, o cosmos. Nisto se cumpre a efectivação dos desejos profundos da pessoa humana.

«Preparai os caminhos do Senhor e endireitai as Suas veredas» (São João Baptista).
Agora sou eu autêntico, em harmonia e unidade de sentimento e razão cooperantes.

Quebra-se, no íntimo, a dureza granítica do despotismo. Fere-se de morte a cisão intransigente. Dissolve-se, no nevoeiro, a arbitrariedade. Corta-se o isolamento.

Perde, em força, a descrença em Deus. Não têm aqui assento a petulância, a vaidade, o desdém, a humilhação.

A Razão pede, por vezes, resistência à não aceitação do desagradável, do doloroso, do difícil pois, enfrentando-a e resistindo-lhe, está aí o começo do êxito e do sucesso. É o caso, por exemplo, do aluno que não protela o estudo, mesmo difícil e trabalhoso, pelos divertimentos agradáveis, fáceis e atractivos.

A Razão traz-me, agora, por companhia, a liberdade de conhecer, de compreender e aceitar os sentimentos e as atitudes dos outros, as suas diferenças e a arte de cooperar e de resolver os conflitos.

A Razão põe também a acariciar-me os pés, a liberdade de entrar em oração com Deus, através da Pessoa de Cristo.

É nesta trilogia de harmonia, de empatia e de amor que, serena e coerente, repousa e adormece a minha menina dos olhos. Para longe dela a perturbadora alienação! E tudo com muita paciência, muita insistência e persistência, em recíproca conexão e cooperação.




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