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Nótulas soltas da minha agenda

No sistema, os docentes foram progressivamente desautorizados, são as “peças”menos importantes, remetidos de Monção para Portimão ou de Elvas para Aveiro,
em cada ano para seu sítio, como se não tivessem família nem precisasse de estabilidade profissional, familiar e pessoal

N/D
27 Set 2004

1 Às vezes sei que estou demasiado “azedo”. E não devo ter esse “direito” face à Esperança em que acredito. Porém, as minhas fragilidades, e são muitas!, a isso me convidam. O pior é que aceito e cedo. E não devia deixar-me arrastar e cair nessa tentação. Apesar de ser um optimista por natureza, não consigo deixar de soçobrar face a algumas situações lamentáveis.

2. Há males que surgem no momento exacto. Esta “história” do concurso dos docentes, verdadeira catástrofe, pôs a nu a “indecência” em que caiu o sistema de ensino. Os burocratas do Ministério, que vivem fora do mundo real, imaginam (e imaginam muito!): mudam, alteram e navegam ao sabor da corrente que deve vir da Lua!… Impõem normas de avaliação, programas, estratégias e modelos teóricos de intervenção educativa… A realidade passa-lhes ao largo!…

De reforma em reforma, o sistema de ensino foi-se degradando. Quem é docente há mais de três décadas, sabe do que falo, porque sabe o que tem sofrido! A nossa população escolar chega ao fim do sistema (pelo menos ao nível do secundário) com défices terríveis. Imagine o leitor que o advérbio doravante é nome de
cientista; que o “Che Guevara” impresso nas suas t-shirts foi morto por Franco no final da Guerra Civil Espanhola; que D. Miguel, o nosso Rei, foi destronado em 1910 e foi assim que acabou o “fascismo” em Portugal; que o cálculo de 9×9 é uma operação tão transcendente que só a calculadora pode determinar; etc., etc. e assim, igual ou pior!).

No sistema, os docentes foram progressivamente desautorizados, são as “peças” menos importantes, remetidos de Monção para Portimão ou de Elvas para Aveiro, em cada ano para seu sítio, como se não tivessem família nem precisassem de estabilidade profissional, familiar e pessoal. O Ministério, que se arroga de todos os direitos, “impinge-lhes” programas cretinos e desajustados. Muda-os sempre que quer, sem avaliar os resultados dos anteriores.

O Ministério da Educação também esquece que vivemos num Estado democrático e plural. Porém, detém o poder, quase absoluto, de ser, na prática, o único detentor das escolas, das normas, dos docentes, estabelecer programas, regras de avaliação, etc.
É chegada a altura – e é agora! – de os pais, e todos os que alimentam com os seus impostos este estado de coisas, dizer: basta! Urge fazer um grande debate sobre esta “coisa” a que chegou o sistema de ensino! Assiste-nos o direito de questionar, debater e… alterar. Não contra o sistema público, mas a favor de um sistema livre, plural e moderno em que devem conviver as propostas públicas e privadas!

3. Lamento que o Presidente da República tome partido na questão das taxas moderadoras na saúde – se é, como diz, o Presidente de todos os portugueses, não deveria esquecer que também é dos que defendem a introdução daquelas. Saber se tal alteração é constitucional ou não e agir de acordo com a Lei fundamental é seu dever. Mais nada.

4. Acabei de ler um livro muito interessante – “Século XXI – Perspectivas” -, da Editorial Presença. É um conjunto de magnificas intervenções numa iniciativa da Câmara Municipal da Covilhã (1999-2003). Transcrevo uma pequena passagem, que subscrevo: «E neste esforço de desenvolvimento, qual o papel que deve caber ao Estado? O Governo reconhece que não deve ser ele a implementar projectos empresariais mas continua lento a abandonar funções de accionista, o que deveria fazer para poder concentrar os recursos humanos, políticos qualificados na condução das funções soberanas do Estado: Defesa, Negócios Estrangeiros, Justiça, Saúde, deixando o sector privado trabalhar para criar riqueza para o desenvolvimento económico do País» (Belmiro de Azevedo, na pág. 58).




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