Fotografia:
Exploração de um certo figurativo eclesiástico

Temos de saber discernir a mensagem que dizemos e aquilo que dizem de nós!…

N/D
27 Set 2004

Surgiu, há dias, na publicidade televisiva um spot em que aparece um padre, devidamente trajado com fato e colarinho eclesiástico, em atitude de exorcismo: a estola, um livro (presume-se que seja religioso), um amuleto ao pescoço e uma frase “exorcizante” – «sai espírito zombeteiro desta casa»…
Não faltou sequer um certo ar de impertinência a fumegar pelos olhos e ouvidos do figurante. Logo surgem certos sinais – quais baratas saltitantes – obedientes àquela voz… Afinal, toda esta encenação é para publicitar uma marca (sueca por sinal) importante de móveis e afins para apetre-chamento de casa…

Não é costume em Portugal o recurso à linguagem de clichés religiosos para fazer publicidade. Um tanto vagamente surgiu já lá vão uns anos um outro spot com um padre de sotaina a “zelar” pelo namoro de uns adolescentes, publicitando uma marca de preservativos. Noutros países mais “católicos” – e consequentemente também bastante anti-clericais – este recurso às figuras eclesiásticas aparece pelas mais díspares razões, motivos e situações.

Digerindo a surpresa e a mensagem como que fomos inte-riorizando as possíveis causas deste spot agora exibido: o teor espiritual, mesmo que ritualizado, pode criar ambiente para interpretar as preocupações materialistas de tantos dos nossos contemporâneos.

A procura dos mais variados esoterismos atrai imensas pessoas, muitas delas ávidas de compreenderem os sinais divinos da sua vida mais ou menos atarefada com tantas aspirações de riqueza… Por outro lado, é questionável que os mentores publicitários tenham de servir-se de imagens de sectores conotados com uma vocação religiosa – ao menos no que à veste talar diz respeito – para tentarem escandalizar, seduzir ou provocar o público. Desta forma se nota a falta de imaginação e ainda uma apropriação indevida do quadro ao qual o figurino pretende atingir.

Quando a dita sociedade civil se reclama de agnóstica e laica não deixa de ser significativo que os ingredientes de suporte para fins menos espirituosos busquem inspiração nas representações clericais mais tradicionalistas!

Certamente que a marca de móveis e electrodomésticos em causa terá avaliado o recurso ao figurativo eclesiástico para atrair os compradores. Talvez não fosse tão fácil lançar mão das vestes rabínicas, das indumentárias dos monges hindus ou das roupas dos muçulmanos. Como é que estes ou outros ministros das suas religiões reagiriam ao verem usados os seus “trajes” religiosos? Haverá medo de os hostilizar e menosprezo pelos católicos para os ridicularizar?

Serão aqueles mais simbólicos do que estes? A ironia será arma para vender mais e melhor? Até que ponto é benéfico reagir ou calar a reacção àquela provocação? Qual terá sido, de facto, o impacto nas vendas?

Afinal, temos de saber discernir a mensagem que dizemos e aquilo que dizem de nós!…




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