Fotografia:
É obsceno

Pressente-se que toda esta estratégia financeira, quer a das poupanças, quer a das taxas, assenta na táctica do falido. Tudo serve de pretexto. A iniquidade tributária cria desigualdade e mal-estar social. É obscena. Prefigura premeditação

N/D
27 Set 2004

A reforma de Mira Amaral de 18 mil euros foi classificada pelo actual ministro das Finanças e Emprego, Bagão Félix, como obscena, no estrito sentido de imoral perante a celeridade da atribuição, o tempo de desempenho e ainda, e principalmente, pelo montante em causa. É um desafio à pobreza, convenhamos.

No entanto, espanta-nos mais a admiração do ministro do que a importância em causa. Espanta-nos pelo desconhecimento (ou fingimento?) do ministro quando se sabe que são vários os ex-presidentes daquele banco do Estado que já receberam reformas iguais. Mas não é obsceno para Bagão Félix o ataque claro, obstinado e tenaz que faz, ou pretende fazer, à classe média, ao retirar-lhe, ou reduzir-lhe substancialmente, os descontos de poupanças em sede de IRS.

Ó senhor ministro, as poupanças reforma e poupança habitação são tostões, não são milhões. São, quantas vezes, o somatório de algumas privações de gozo de férias, de almoços, de viagens, etc. Quantos subsídios de férias e ou de Natal não foram para as poupanças! Os benefícios fiscais eram, na verdade, uns bons juros. Era o único refúgio aos caçadores. Então aquilo que se depositava eram côdeas de remedeio e até essas o senhor quer rapar-lhas.

Os ricos jogam nas bolsas mundiais, nas compra e vendas de empresas, nas fusões transnacionais, nas associações empresariais… têm o mundo da alta finança que os governa e que o senhor conhece bem; não precisam de poupanças. As poupanças são ilhotas no meio do grande oceano.

Não acha que está a aparar as unhas até fazer doer o sabugo dos poupados? Quanto à saúde e às taxas moderadoras, ficar-nos-emos para um comentário futuro, primordialmente quando soubermos concretamente os reflexos da posição do sr. Presidente da República sobre a matéria. Mas há doutrinas subjacentes às medidas que se queriam tomar para podermos adivinhar, desde logo, as intenções.

A teoria de que “quem pode mais, paga mais”, e que “quem pode menos, paga menos”, só seria válida e perfeitamente aceitável, em termos de justiça social, se os que podem mais utilizassem os serviços de saúde.

Mas como não vão lá porque têm dinheiro para irem à prestação privada, então quem vai pagar a factura destas novas medidas? A eterna classe média. Isto é, sem conseguir nivelar, consegue espoliar. Bagão Félix não foi feliz nesta dupla tributação.

Pressente-se que toda esta estratégia financeira, quer a das poupanças, quer a das taxas, assenta na táctica do falido. Tudo serve de pretexto. A iniquidade tributária cria desigualdade e mal-estar social. É obscena. Prefigura premeditação.

Por outro lado, o sistema de reformas do Estado está falido e os portugueses foram incentivados muitas vezes a fazerem complementos de reforma supletivos. Voltando às poupanças: então que fazer aos pequenos aforros das reformas? Se não é dinheiro que dê para aplicar, se o capital é comido pela inflação, se as reformas do Estado já não devem ser completadas pelas reformas poupanças, parece-nos que o melhor é voltar a metê-lo debaixo do colchão.

A inflação tanto o devora em casa como no banco. Mas o dinheiro é uma mercadoria que deve gerar outra mercadoria. Pois então tornem aliciantes as poupanças. Os ladrões podem ir lá buscá-lo ao colchão, é certo, mas enfim, entre ser roubado por uns ou ser roubados por outros, para nós o resultado é o mesmo. É obscena esta teoria, em termos económicos e financeiros? Pois é, mas com quem aprendemos nós a ser obscenos?




Notícias relacionadas


Scroll Up