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O cantor, o chairman, o CEO e a ex-ministra

Antes de comparecer perante o júri do concurso Ídolos para exibir os seus putativos dotes canoros, o rapaz, como é costume no programa que a SIC emite, apresentou-se aos espectadores televisivos.

N/D
26 Set 2004

Podia ter dito que era fã de uma cantora pimba ou de um grupo gótico, que gostava de gatos ou de cães, que amava ou desprezava a humanidade. Podia ter dito algo do género, mas não.
Em vez de dizer uma vulgaridade qualquer, o rapaz elevou a fasquia e garantiu que era possuidor de uma característica invejável: tinha “star quality”. Não seria preciso assistir ao desfecho da aventura televisiva do jovem para perceber o que augurava a “star prosápia”.

O rapaz desconhecia que, quando se tem “carisma”, não se anda a dizer que se tem “carisma” e que, quando se sabe cantar, é dispensável afirmar que se sabe cantar. No instante em que a “star quality” teve oportunidade de se mostrar, o que se viu foi uma “star nulidade”.

O exemplo do jovem mostra como está generalizado o hábito de importar termos para fazer embrulhos vistosos que não têm conteúdo. A “star quality” (ou a falta dela) de um concorrente televisivo pouco ou nada importa, mas há palavras que têm o condão de penalizar a carteira dos contribuintes portugueses.

É o caso de chairman e chief executive office, as palavrinhas escolhidas para designar as funções dos titulares das direcções bicéfalas da TAP e da Caixa Geral de Depósitos.

As duas instituições públicas tinham, para simplificar, um chefe. O governo anterior resolveu que deveriam ter dois, um chairman e um chief executive office.

A iniciativa – claro – agradou a Cardoso e Cunha, que foi para a TAP fazer de chairman, e a Mira Amaral, que foi para a Caixa Geral de Depósitos tomar conta do lugar de chief executive office.

Agora, acaba de se perceber que a modernice importada dos Estados Unidos da América quase só terá servido para arranjar lugares a dois boys seniores.

O chairman e o chief executive office são mais um embrulho com nada dentro. Um embrulho que, para a nação, foi inútil e dispendioso.

Para referir apenas um caso, basta recordar que os cerca de vinte meses de ocupação do lugar de chief executive office da Caixa Geral de Depósitos deram a Mira Amaral o direito a receber, aos cinquenta e tal anos, uma reforma de três mil e seiscentos contos por mês (já agora, uma pergunta por mera curiosidade: por que é que os gestores públicos se podem reformar em qualquer idade?).

O difícil convívio entre o chairman e o chief executive office provocou, no caso da Caixa Geral de Depósitos, uma mudança no modelo de gestão, mas nem por isso abrandou o desejo, sempre incontrolável, de enfiar alguns boys nos lugares e assim assistiu-se ao bizarra remate de Celeste Cardona para um lugar na administração do banco.

Se, quando se tem “carisma”, não se anda a dizer que se tem “carisma”, também, quando se tem “um currículo invejável”, não se anda a dizer que se tem “um currículo invejável”.

Se a senhora que vai ocupar um lugar na Caixa Geral de Depósitos tem um “um currículo invejável”, como disse o líder parlamentar do partido da senhora, seria da natureza desse currículo que alguém o invejasse.

E, excluindo o líder parlamentar do PP e um ou outro militante do partido, que criatura, em seu estado normal, pode cobiçar o currículo (que currículo?) de Celeste Cardona?

(A nomeação da militante do Partido Popular tem, ainda assim, o não desprezível mérito de estimular a militância partidária, ao mostrar que nada obsta a que qualquer cidadão, apenas pelo simples facto de ser militante de um partido político que esteja no poder, possa ser administrador da Caixa Geral de Depósitos).

O que poderá ser invejável no caso da ex-ministra da Justiça é exclusivamente o ordenado que a senhora, a partir deste momento, irá receber. É frequente ouvir-se dizer que se o Estado quer bons gestores tem de os pagar, sendo certo que os paga (pagando, tantas vezes, demasiado bem a gestores cuja competência é um mistério).

O princípio que estabelece que quem quer bons profissionais tem de os pagar, curiosamente, só se aplica aos gestores. Não se percebe, por isso, se o Estado paga mal a outros trabalhadores porque acha bem que eles sejam maus profissionais ou porque, no caso de pretender que sejam bons, eles devem trabalhar apenas, como agora se diz, por amor à camisola.

PS: na noite de sexta-feira, num debate televisivo em que participou o Presidente da República, uma senhora disse isto: as pessoas, em relação aos serviços de saúde, queixam-se não do serviço em si, mas do modo como são atendidas. O que a senhora ignora é que o modo como as pessoas são atendidas nos serviços de saúde faz parte do serviço em si.




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