Fotografia:
Bagão infeliz

As cabeças pensantes da nossa praça parece terem adorado a conversa em família do Ministro das Finanças. Apreciaram particularmente a “coragem” com que Bagão Félix expôs a situação orçamental.

N/D
26 Set 2004

Pois bem, temos de confessar que não ouvimos da boca do ministro nada de especialmente revelador ou audacioso. A cassette dos gastos excessivos com a Administração Pública é mais velha que a Sé de Braga.
E acusar de baixa produtividade os trabalhadores portugueses é, no mínimo, hilariante… quando a acusação parte de um governante que coabitou durante dois anos com alguns dos conhecidos casos de falta de produtividade (e incompetência).

Será preciso fazer um esforço de memória para recordar o caos lançado pelo seu colega David Justino com a atabalhoada e mal concebida revisão curricular? Ou a imbatível incompetência revelada no processo de colocação de professores? Ou a produtividade revelada pelo Ministro da Saúde no combate às listas de espera? Isto de lançar pedras, quando se tem telhados de vidro…

E quanto ao esbanjamento de dinheiro, vamos dar ao ministro Bagão Félix algumas sugestões para poupar o dinheiro dos contribuintes. Isto, se tiver mesmo coragem.

a) Reformas dos políticos – É imoral que dois mandatos como deputado dêem direito a reforma. Ou que haja ex-vereadores com quarenta e tal anos de idade a passear a sua aposentação pelas ruas, acotovelando-se com trabalhadores que vão ter de esperar mais vinte anos para receber – se é que a vão ter – uma magra reforma.

b) “Boys” dos partidos – São muitos milhares os lugares nas autarquias e na administração central ocupados por pessoas cujo único currículo relevante é o cartão (ou a simpatia) partidária. Regra geral, trata-se de empregos bem pagos e onde a produtividade é escassa. Enquanto isso, há milhares de jovens que todos os anos são lançados no desemprego.

c) Professores sem horário – Em muitas escolas, há dezenas de professores a fazer literalmente nada. Uns, porque são de disciplinas sem horário, por causa das reformas educativas.

Mas, noutros casos, trata-se de privilegiados (às vezes, por graça das boas relações cultivadas com o poder político) a quem se atribuem cargos ou horários “de luxo”: a educação especial, o ensino recorrente, a formação de professores, etc., etc. Enquanto isso, dizem que não há dinheiro para reduzir o número de alunos por turma e absorver os professores desempregados. É de doidos!

d) Salários sumptuários – E que pensar dos salários astronómicos dos administradores das empresas do Estado e das autarquias? Há tempos, até o Tribunal de Contas se mostrou escandalizado com os vencimentos, os prémios de produtividade e outras regalias dos administradores das empresas intermunicipais e municipais de abastecimento de águas, saneamento e resíduos. Até há já algumas delas a pagar o 15.º e o 16.º mês…

e) Livros e passeios gratuitos – O senhor ministro não deve ver televisão, senão sabia que há autarquias que se dão ao luxo de pagar livros e material escolar à totalidade dos alunos do município.

Ao mesmo tempo, os pais dos outros concelhos – que sustentam com os seus impostos a “generosidade” destes presidentes da Câmara – têm de apertar o cinto para fazer frente ao galopante aumento dos preços dos manuais. Um país, dois sistemas?

Outras câmaras especializaram-se em levar os “velhinhos” a fazer viagens a Fátima. Quer dizer, o tal dinheiro dos impostos, que mal parece chegar para os salários da Função Pública e a Segurança Social, é alegremente oferecido aos caciques locais para a “compra” de votos.

Como vê, senhor ministro Bagão Félix, há muito por onde poupar. Basta ter a tal coragem necessária para retirar algumas regalias aos lobbies e aos poderosos deste país. E quanto às oposições, também haveria muitas medidas para propor na Assembleia da República.

Que dizem: mãos à obra!?




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