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Massacre na terra dos Alanos

1 Dificuldades de classificar BeslanComo sabem, eu sempre procuro evitar a superficialidade e o primarismo em qualquer análise ou comentário que faça sobre factos políticos ou históricos. Porém e à primeira vista, no sequestro da escola de Beslan, na Ossétia russa, o termo que me ocorre é o que identifica aquela coisa abstracta, vaga, cega, cruel, impiedosa e aparentemente estúpida a que os americanos e outros chamam “terrorismo”.

N/D
24 Set 2004

E que, apesar de abstracta e vaga, eles americanos elegeram para seu principal “inimigo”; e a pretexto de cuja existência difusa se acham no direito de guerrear e invadir qualquer país do mundo. E têm-no feito, não tendo ainda avaliado a duradoura queda de popularidade que daí advém para o seu povo, entre as elites (e não só) dos outros países.

Porém, no sequestro e massacre ocorrido na escola de Beslan, apetece realmente usar a tal palavra “terror”, vocábulo que também é favorito desse redondo político anti-cananeu e anti-filisteu do Médio Oriente, homem de semblante enganadoramente jovial e de andar bamboleante e que dá pelo nome de Ariel Sharon. Este teimosíssimo ex-militar israelita parece ter um gozo especial quando pronuncia a terrível palavra, parece mascá-la, ruminá-la demoradamente. Daí que se possa duvidar dos seus reais propósitos. Como o confirmam aliás os factos…

2. Sequestrar uma escola com centenas de crianças

Quem, em tempo de Paz, admite pôr em risco sério de vida centenas de crianças duma escola (e seus pais), para fins políticos (quaisquer que estes sejam) não pode ser uma pessoa respeitável. Chamil Bassaiev e Arslan Maskhadov, principais líderes da guerrilha chechena, aliás, negaram de início estar por trás de plano tão reprovável.

Verdade ou mentira? Por enquanto não se sabe. Mas o estilo de fazer refém uma imensa quantidade de pessoas ao mesmo tempo, parece ser bem característico dos chechenos; lembremos o caso (bem sucedido) do hospital de Grozny; e o mal sucedido sequestro do teatro de Moscovo, em que a tropa russa atacou sem grandes contemplações, mostrando aos terroristas que em caso de necessidade também sabia ser “terrorista” e que o respeito pelos indivíduos, pelos civis anónimos, nunca foi apanágio do Estado Russo.

Será que ao sequestrar crianças em vez de adultos, os independentistas quiseram subir um último degrau, ao pôr à prova a “sensibilidade” dos moscovitas em casos de terrorismo? Não se sabe. O que se sabe é que desta vez foram os vizinhos inguches e talvez alguns árabes os executantes. Os homens de Putin dizem que não eram chechenos. Esquisito… E se havia mesmo árabes entre os sequestradores, isso é muito mau sinal.

Pois tal pode fazer indiciar que entre essas organizações muçulmanas secretas que parecem estar ligadas à tal Al Qaeda, haverá alguns fanáticos tão intolerantes que (mesmo numa altura destas, em que o seu principal inimigo é Washington, ocupante de Assíria e Babilónia) não têm pudor de atacar potências neutrais com as quais têm apenas divergências menores (como é o caso da Rússia, na Chechénia).

3. Provocação?

Dando algum crédito às declarações iniciais de Bassaiev e Maskhadov (que negaram o envolvimento oficial do “governo-sombra” dos chechenos) será que o sequestro terrorista da escola da Ossétia foi apenas uma sangrenta “provocação”? Mas para servir a quem, visto que aos chechenos não serve e aos russos muito menos (pois se foram os próprios russos a confessar que não havia chechenos entre os terroristas!).

O assunto continua nebuloso… Porém não se deverá esquecer que estamos a dois meses das eleições americanas e que massacres como o que ocorreu em Beslan (ainda por cima, de “paternidade” duvidosa) poderão favorecer Bush na sua postura ultra-securitária e na sua mais que improvável teoria acerca duma única pseudo-central do “Terror”. Mas também o pode prejudicar, pois Beslan prova que não foi por invadirem o Afeganistão e o Iraque que o tal “Terror” diminuiu, muito pelo contrário…

Não esqueçamos ainda, nesta hipótese de o caso Beslan se tratar de uma “provocação”, que, concomitante com o sequestro desta escola, têm sido raptadas ou executadas ultimamente no Iraque vá-rios grupos de pessoas que nada tinham a ver com o agressor americano. Foi o caso do jornalista italiano Enzo Baldoni (já morto), das duas cooperantes italianas (as duas Simonas) e dos dois jornalistas franceses (e lembremos aqui que a França se opôs à invasão).

4. A Ossétia, pátria dos nossos Alanos

No mosaico etno-linguístico que é o Cáucaso, sobram, hoje ainda, alguns povos que falam as antigas línguas (iranianas) que falavam os poderosos Citas e Sármatas, que dominaram as imensas planícies a norte e a oeste dessa grande cordilheira, entre os séculos VII a.C. e IV d.C. Um desses raros povos é o dos Ossetas, hoje dividido em dois. O do norte forma uma região autónoma da Federação Russa, o do sul pertence à Geórgia. A capital da Ossétia do Norte era chamada Ordjonikidze (em homenagem a certo líder comunista georgiano); hoje chama-se Vladi Kavkaz (“glorioso Cáucaso”, em língua russa). Já o principal clube local é o Alania Vladikavkaz. Porquê “Alania”?

Porque, segundo pensam os historiadores, foi da Ossétia que vieram os Alanos, ramo do povo Sármata (iraniano) que se juntou aos germânicos Suevos e Vândalos na conquista da Ibéria aos Romanos, em 409 d.C. Eram na altura comandados por Respendial.

O desmembramento do rude império sármata deveu-se à brutal avalancha dos Hunos, vindos da Ásia Central. Muitos Alanos ficaram na sua pátria, embora obedecendo aos Hunos, e esses são os avós dos Ossetas. Houve ainda um terceiro grupo, que tendo também atravessado o Reno com os Suevos e Vândalos se fixou no médio rio Loire e se pôs ao serviço de Roma (era chefiado por Goáris).

Porém, logo a seguir, estes dois grupos foram submetidos pelos poderosos Visigodos (e os da Espanha, logo em 418). Quando os Godos da Gália foram derrotados pelos germânicos Francos, pensa-se que parte do terceiro grupo alano terá também passado à Espanha com os Godos. Porém, os outros Alanos, os que eram aliados dos Vândalos, invadiram com eles o que é hoje Marrocos e Argélia e formaram um reino na actual Tunísia, o qual ainda durou mais de um século, até à sua incorporação no Império Bizantino (em 534).

Os Alanos (como os Sarmato-Citas) eram cavaleiros nómadas, deslocando-se em excelentes carros de madeira, completamente fechados. Possuíam grandes manadas de bois e cavalos. E eram, além disso, notáveis joalheiros e ferreiros.

As suas armaduras e capacetes eram talvez as melhores do seu tempo. São descritos pelo historiador greco-romano Amiano Marcelino (século IV d.C.) como indivíduos robustos e altos, alguns de compleição clara e todos com um olhar «terrível mas não hediondo». O seu nome parece mesmo querer dizer “ariano”, ou, em velho persa, “aryanam”.




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