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«A bandeira da esquerda»!

Quem saiu vitorioso e reforçado, no campo político, foi mesmo o Governo, porque se uniu, demonstrou firmeza e coragem e não pactuou com ilegalidades

N/D
24 Set 2004

Numa altura em que era preciso injectar, em todos nós, doses maciças de confiança, serenidade e reunir esforços e vontades para avivar e consolidar a tão desejada retoma económica, o país assistiu impávido e boquiaberto a litigáveis quixotices levadas à cena por organizações cívicas (?) e políticas que estão mais interessadas em defender uma determinada concepção de direitos da mulher do que pugnar pelo direito de nascer.

Essas demonstrações, do “Barco do Aborto”, no meu ponto de vista, foram folclóricas, nada pedagógicas e de sensibilização duvidosa, se bem que fosse este um dos objectivos a atingir. Tanto aparato, para se mobilizar uma comunicação social esfomeada de sensacionalismos, para ressurgir tensões e conflitos institucionais e para extremar posições. Foi mais uma jornada política de algumas forças partidárias que quiseram marcar a agenda política nacional, mas sem sucesso, do que uma campanha de impacte social que abrisse o debate desta problemática.

A democracia é e deveria ser sempre fundamentada no antagonismo de ideias, na diferenciação de objectivos, no respeito pleno da liberdade de opinião, na aceitação dos resultados eleitorais. Actos políticos, como os referendos e as eleições, são mecanismos democráticos de vital importância de consulta popular, em que o povo exprime livremente o seu desejo e a sua opção. Daqui resulta o primado das maiorias num quadro de respeito pleno pelas minorias.

Em tempos não muito recuados, o povo foi ouvido a propósito de se despenalizar e de se legalizar a interrupção voluntária da gravidez. E o resultado dessa consulta foi uma categórica derrota dos abortistas que, mesmo assim, não desistem até conseguirem impor a sua vontade.

Desta vez, apostaram em trazer um barco, ao que parece, devidamente apetrechado, para proceder a práticas abortivas que, neste momento, são ilegais no nosso país. É claro que, nesta situação, o Governo pôs-se ao lado da legalidade, como era de esperar, e impediu que o referido barco atracasse em portos nacionais.

Os pró-aborto desenvolveram, de imediato, pressões de todo o tipo, junto das mais variadas instâncias, nacionais e internacionais, mas o Governo manteve-se firme e decidido a não permitir, e bem, tal operação de atracagem. Foi a vitória inequívoca da legalidade contra um adversário barulhento que soube “manipular” uma comunicação social que não regateou meios, nem dinheiro, para cobrir tal pseudo-evento.

Este problema do aborto ou não aborto não é, no meu entendimento, um assunto prioritário, nem crucial para a harmonização social, familiar, e tão-pouco representa um perigo para a saúde pública. Merece, contudo, uma abordagem cuidada, bem discutida e enquadrada num contexto da dignificação da mulher, da família e do ser embrionário. É evidente que há custos em vidas humanas desta proibição de abortar.

Mas o que está em causa é um défice educacional e cultural das nossas gentes, aliada a uma informação que não tem chegado, a devido tempo, aos destinatários como deveria ser.

No entanto, esta realidade não deverá ser objecto de leviandades e de facilitismos legislativos, porque nada está garantido que tudo fica resolvido com a legalização sem deixar sequelas psicológicas ou de outra índole nas candidatas ao aborto. Além de tudo, isto é um caso sério que pode criar clivagens irreparáveis na sociedade portuguesa, por si conservadora e muito arreigada a princípios de natureza familiar, ética e religiosa.

A vinda do “Barco do Aborto” serviu mais de trampolim para umas tantas facções políticas e sociais conseguirem uns tempos de antena extraordinários, quererem afirmar-se como únicos e verdadeiros defensores da mulher e para desgastar a política desenvolvida pelo XVI Governo.

Esta posição radicalizada é demonstrativa extemporaneamente da má digestão da atitude tida pelo presidente Jorge Sampaio a propósito de dar provimento ao governo de Santana Lopes. De facto, estes partidos da chamada esquerda portuguesa não perdoam a sensatez da Presidência da República e tudo fazem para denegrir a posição democrática e correcta da primeira figura do Estado.

Toda esta pseudo-celeuma trazida pelo “Barco do Aborto” me predispôs a colocar algumas questões.

Quem pagará a factura do aluguer do barco e da tripulação?

Será alguma ONG (Organização Não Governamental) que recebeu subsídio do Estado?

Se o Bloco de Esquerda com dois deputados eleitos faz este barulho ensurdecedor, como seria o país se esse partido tivesse umas dezenas?

A seguir vamos ter o “barco da droga”? Ou o “barco da prostituição”?

São estas as bandeiras da nossa esquerda?

O que faz correr tanto a comunicação social na cobertura deste tipo de pseudo-acontecimentos?

As bandeiras políticas desta esquerda portuguesa estão mesmo arreadas, desbotadas e esfarrapadas. Depois do desmembramento e da perda de identidade, nos anos 90, do espaço comunista e com o natural arrefecimento ideológico dos cidadãos que professavam esse tipo de doutrina, esses partidos, para sobreviver, agarram-se a bóias dissimuladas, ilusórias, fazendo-nos crer que são os únicos arautos da justiça, da paz e dos direitos humanos.

No meu ponto de vista, quem saiu vitorioso e reforçado, no campo político, foi mesmo o Governo, porque se uniu, demonstrou firmeza e coragem e não pactuou com ilegalidades.




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