Fotografia:
No começo do ano escolar

Não reduzamos os problemas do mundo escolar aos atrasos, lamentáveis, na colocação dos professores. Há que tomar consciência de que alguns sectores do mundo escolar desde há anos que vêm enfermando de um conjunto de males que é bom erradicar

N/D
23 Set 2004

É verdade que o ano escolar não começou nada bem. Também é verdade que os anos escolares, em muitos aspectos, não têm decorrido da melhor forma.
Tem-se insistido na vergonha dos atrasos na colocação dos professores. É mais que oportuno recordar que o ano lectivo deve ser preparado atempadamente. É mais que legítimo pretender que todas as pessoas que vão servir nas escolas – docentes, pessoal administrativo, pessoal auxiliar – saibam, a tempo e horas, onde vão trabalhar e o que vão fazer.

Como se não vai esperar pelo começo do ano lectivo para fazer obras nos edifícios escolares. O facto, porém, de ainda haver professores por colocar não pode ser pretexto para que os que estão colocados não comecem já a trabalhar com todo o entusiasmo.

Mas não reduzamos os problemas do mundo escolar aos atrasos, lamentáveis, na colocação dos professores. Há que tomar cons-ciência de que alguns sectores do mundo escolar desde há anos que vêm enfermando de um conjunto de males que é bom erradicar. Enumero alguns:

– a falta de qualidade e de profissionalismo de alguns docentes, que enveredaram pelo ensino porque talvez não tenham encontrado outra saída;

– a falta de assiduidade e a desmotivação por parte de quem deveria dar exemplo de dedicação ao trabalho;
– a falta de estímulo aos professores que mais trabalham;

– a indisciplina que se permite em algumas escolas, onde continua a ser proibido proibir e ninguém está para se incomodar a chamar à atenção ou a repreender;

– o facilitismo, que leva os alunos a não estudarem, certos de que no fim do ano surge como que uma amnistia geral, porque não convém que apareça na pauta um número elevado de reprovações, porque as reprovações podem ser interpretadas como consequência da falta de empenhamento do mestre, porque a reprovação de um aluno pode redundar mais em castigo para o professor do que para o estudante;

– a promoção, ao longo do ano escolar, de iniciativas que levam os discentes a dispersarem-se e a ocuparem o tempo com coisas que nada têm a ver com a vida académica;

– as solicitações da vida nocturna que levam alguns estudantes a não irem à aulas ou a irem para lá ensonados;

– a redução dos níveis de exigência e a falta de incentivos;

– o nivelamento por baixo, em turmas onde existe um considerável número de alunos com fraco rendimento;

– a falta de apoio a muitos alunos que se sentem desorientados na transição da primeira fase do Ensino Básico para a segunda, na passagem para o Secundário e até na entrada no Ensino Superior;

– a identificação que se pretende estabelecer entre a chamada irreverência académica e a falta de educação, o atrevimento que ultrapassa os limites do razoável, a irresponsabilidade;

– o facto de, por vezes, se considerarem os estudantes como um grupo de privilegiados ou de meninos mimados a quem se tolera o intolerável e a quem tudo se dá e de quem pouco ou nada se exige;

– a falta de colaboração entre a Família e a Escola, com culpas, em muitos casos, para ambas as partes;

– a falta de verdadeira liberdade de ensino;

– a politização da Escola;

– o facto de haver quem aproveite o tempo que deveria dedicar ao ensino para falar de coisas que nada têm a ver com a matéria a explicar; etc., etc.

Voltando à colocação dos professores. Naturalmente que se o problema fosse fácil já estaria resolvido, mas parece-me ser bom que se pense na forma de dar aos docentes o máximo de estabilidade. Isto de haver professores que todos os anos mudam de escola; que todos os anos conhecem novos alunos, novos colegas e novo ambiente; de haver alunos que todos os anos conhecem novos professores não deixa de ser prejudicial.

Olhando para o mundo do ensino há realmente um conjunto de situações a rever, de males a remediar, de erros a corrigir para que a Escola dê à Comunidade os cidadãos de que esta precisa e a que tem direito.

E não invoquem a questão da falta de dinheiro. Com menos dinheiro já se fez mais e melhor. Com menos dinheiro, estou persuadido, pode-se fazer mais e melhor. Também no ensino uma coisa é gastar dinheiro – e continua a ser gasto – e outra é investir: procurar tirar o máximo de rendimento do dinheiro despendido.




Notícias relacionadas


Scroll Up