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O barco da vida

Vamos falar do desenvolvimento do sistema nervoso nas primeiras etapas do ciclo de vida do homem. Há uma pergunta crucial que muitas vezes se faz: quando começa a vida humana? Paul Mussen, Professor de Psicologia e Investigador do Laboratório de Pesquisas Psicológicas do Institut of Developement da Universidade da Califórnia, escreve que «o desenvolvimento é um processo contínuo que principia com a própria vida, no acto da concepção.

N/D
22 Set 2004

Esse evento ocorre no momento em que o óvulo materno é fecundado. Imediatamente após a fecundação, inicia-se o processo de mitose ou divisão de célula. O óvulo fecundado, uma célula única, divide-se e subdivide-se rapidamente, até que milhões de células se vão formando. À medida que o desenvolvimento prossegue, as novas células assumem funções altamente especializadas, convertendo-se em parcelas de vários sistemas do corpo».
De vez em quando, mas por outras razões, dizem-se muitos disparates sobre esta etapa da vida humana. Tire o leitor as suas conclusões depois de apreciar o desenvolvimento do sistema nervoso até à vigésima semana de gravidez. Mas, antes, há aspectos fundamentais que é preciso não esquecer:

1. O ciclo de vida da pessoa humana tem que ser visto como processo contínuo no seu conjunto, desde a concepção até à morte. Não podemos valorizar mais esta ou aquela etapa do ciclo da vida. Cada uma delas é diferente, mas cada uma é sempre a mais importante no momento em que se vive, porque só se vive uma vez e pelo significado que tem no conjunto do ciclo de vida humana.

Começamos a nossa vida totalmente dependentes, aprendemos com os pais a ser autónomos, nós mesmo ensinamos depois aos filhos a crescer e a ser autónomos também e terminamos os nossos dias de novo dependentes. Os laços que unem todas estas fases do ciclo de vida do homem e das gerações que se vão sucedendo são feitos e tecidos de amor e de solidariedade. É o amor que dá sentido e alma à vida; é o amor que une as gerações.

O amor envolve e acompanha toda a trajectória do ciclo de vida humana: por um acto de amor somos gerados, precisamos do amor até para crescer e viver normalmente, vamos à procura do amor para sermos nós agora a transmitir a vida, despedimo-nos desta vida na saudade e no amor e, para os que têm fé, vamos à procura do encontro com o amor transcendente depois de experimentarmos viver o amor aqui na Terra.

2. O ser humano não pertence a ninguém, em momento algum do seu ciclo de vida; ninguém pode tomar decisões sobre a sua vida, embora haja fases em que é absolutamente dependente da mãe, na fase do desenvolvimento no seio materno, muito dependente também na fase de recém-nascido, na fase da infância, na doença, na velhice. É concebido e começa a crescer dentro do seio materno e a natureza prepara o corpo da mãe para o acolher e ajudar a crescer, mas não pertence à mãe nem é parte do corpo da mãe. É um ser independente, embora ainda não tenha desenvolvido a sua autonomia em relação à mãe.

Sendo o homem um ser que pensa e tem consciência do seu pensamento, um ser que ama e tem consciência dos seus sentimentos, um ser que decide dos seus actos e é responsável pelo seu destino, não admira que o seu cérebro seja uma extraordinária e complexa máquina viva com mais de 100 000 000 000 000 de sinapses (ligações de interacção das diversas partes entre si, ou seja, mais do que o número calculado para as folhas das árvores da floresta amazónica). O cérebro humano é certamente a maior maravilha que conhecemos.

O processo do desenvolvimento do seu sistema nervoso, nas primeiras fases do seu ciclo de vida, é também uma autêntica maravilha. Do livro “Cérebro e sistema nervoso central”, elaborado por um conjunto de especialistas, respigo algumas informações significativas.

No início do ciclo vital do homem, existe apenas o ovo fecundado.

Passada uma semana, o rápido processo de divisão e multiplicação celular transformou esta célula única num aglomerado de centenas de células, que rapidamente se organizam em torno de duas extremidades: a extremidade cefálica e a extremidade caudal.

Na terceira semana, surge um sulco ao longo do minúsculo embrião: os lábios deste sulco encontram-se e fundem-se, formando um tubo neural com 1,4 mm de comprimento. A partir deste tubo neural, formar-se-ão a medula espinal, os nervos e o cérebro. Já são bem visíveis as células que formam a base do cérebro e da medula espinal.

Na quarta semana, a extremidade superior do tubo neural começa a aumentar de volume, tendo-se já dividido em diversas regiões. O topo, onde se formará o telencéfalo, cresce mais rapidamente.

Na quinta semana, é notório o aumento do telencéfalo, enquanto as partes inferiores do tubo neural se transformam já na medula espinal e dela começam a brotar os nervos.

Na oitava semana, as partes inferiores do cérebro começam já a dobrar-se, aumentado de volume e desenvolvendo-se mutuamente para formar as estruturas do tronco cerebral e do cerebelo. No interior destas regiões, as células dividem-se a um ritmo vertiginoso (são criados 250.000 novos neurónios em cada minuto, ou seja, 15 milhões por hora).

As células vão migrando para as diversas partes do cérebro e da medula espinal, emitindo tentáculos que se unem entre si: organizam-se segundo padrões que transformam a sua actividade eléctrica dispersa em percepções e pensamentos.

Após a nona semana, o ser em desenvolvimento toma o nome de feto (aos sete
meses designa-se por feto viável, se houver parto prematuro, já tem possibilidades de sobreviver).

Entre a nona e a décima semana, o cérebro e os nervos começam a funcionar.
Na vigésima semana, quando tem cerca de 19 cm de comprimento, o feto já reage a ruídos do mundo exterior, um novo vector na formação da sua personalidade. Assim se vai iniciando um processo adaptativo, que continua ao longo de toda a sua vida. Mas o factor mais importante, nesta fase do ciclo de vida, é o acolhimento materno e os cuidados de saúde para que este ser humano em desenvolvimento cresça e se sinta feliz na sua relação com a mãe e o mundo que o rodeia.

«O afecto, diz Emde, organiza a experiência… pode-se dizer que há um núcleo afectivo da experiência pessoal que dá sentido de continuidade nos períodos de mudança desenvolvimental e um sentido de empatia com os outros».




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