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A Educação pede paz e sossego

Mudou-se de um concurso péssimo que funcionava relativamente bem para um concurso teoricamente bom que resultou no pior início do ano escolar dos últimos trinta anos

N/D
21 Set 2004

No momento em que escrevo estas linhas milhares de professores desesperam para saber que rumo levará a sua vida no próximo ano. Presumo que uma parte significativa deles ainda vá começar a fazer malas hoje, depois de conhecer os resultados dos concursos.
Isto, claro, se os resultados forem mesmo divulgados hoje [ontem] e se o site do Ministério da Educação não entupir. As mãos trémulas seguram nos ratos, os olhos brilham colados aos monitores. Brilham do cansaço, do excesso de radiações. Brilham com aquele brilho fundo e opaco que denuncia uma noite mal dormida e uma manhã mal acordada.

Se bem entendo o que está a passar-se com o sistema de colocações de pessoal docente nas escolas portuguesas, mudou-se de um concurso péssimo que funcionava relativamente bem para um concurso teoricamente bom que resultou no pior início do ano escolar dos últimos trinta anos.

Nesta situação como em tantas outras, reforça-se a sensação de que os agentes da educação são tratados como ratos de laboratório em experiências aventureiras. Parece que na educação está tudo em constante mudança para que tudo fique igual… ou pior.

O cidadão comum não consegue entender o complexo labirinto administrativo que são os concursos de professores, mas qualquer pessoa percebe que não há sistema de educação que resista quando em poucos anos se fazem sucessivas reformas curriculares sem que nenhuma chegue a acabar, ou que não há modelo de gestão de estabelecimentos de ensino que seja eficaz quando está em mudança permanente, ou que não vale a pena aumentar repetidamente a escolaridade obrigatória sem nunca atacar devidamente o abandono escolar.

Sinceramente, percebo pouco do problema, mas tenho a sensação de que já não há pa-ciência para as “reformas” no ensino. Os portugueses estão fartos dos ministros reformistas na área da educação. Portugal deve ter tido, nos últimos anos, mais de quinze Ministros da Educação, dos quais mais de metade foram reformistas. Eu não fiz as contas, mas se o leitor as fizer chegará facilmente à conclusão de que, desde 1984 até agora, cada ministro esteve em média cerca de um ano e meio à frente do ministério.

O resultado é que em duas décadas toda a gente levantou poeira e ninguém deixou a poeira assentar. O caos é consequência de voluntarismos excessivos que se foram atropelando consecutivamente.

Não é por acaso que os professores, enquanto classe profissional, são os campeões nacionais das depressões e do stress. Parece anedótico, mas é dramático. É certo que os problemas que afectam a educação não começam nem acabam no sistema estadual de ensino. Pelo contrário, a dinâmica da sociedade exige cada vez mais da escola e dá-lhe cada vez menos.

Os pais, com a sua vida atribulada, educam cada vez menos, têm cada vez menos tempo para os filhos e as crianças estão cada vez mais sujeitas a influências que são exteriores à escola e à família. A vida nos tempos que correm não facilita a educação no seu local por excelência: em casa. As mentalidades reinantes também não. À escola é exigida uma função que ultrapassa as suas atribuições clássicas.

Se todas estas causas externas contribuem para a crise do sistema, o próprio sistema, ao não existir enquanto conjunto ordenado e coerente de factores organizativos, infra-estruturais e humanos, contribui para a crise. O primeiro objectivo a perseguir para uma política de educação eficaz é consolidar um sistema que dê o mínimo de resposta às exigências sem estar sujeito aos humores e ânsias de protagonismo de quem passa pelo seu comando.

Um sistema que possa ser alvo de intervenções pontuais que o tornem melhor, mas que possa ser deixado em paz pelas “reformas” por algum tempo. O sistema existe, é o que temos, e funciona se o deixarem funcionar.

À Senhora Ministra da Educação o país deve exigir que não mexa no que não deve mexer. Talvez assim haja disponibilidade para corrigir em áreas tão importantes como o abandono escolar, a consolidação da rede pré-escolar, a valorização do papel e da autoridade dos professores, a criação de um justo subsídio de deslocalização para o pessoal docente, a promoção da excelência e da exigência, uma política de estabilidade nos manuais escolares, o financiamento do sistema, a resposta às novas realidades demográficas do país e uma avaliação prudente e coerente do desempenho das escolas.

É certo que o responsável que tiver a coragem de assumir uma atitude sensata, dando momentos de paz ao sistema e apostando em medidas cirúrgicas e bem estudadas, perderá manchetes de jornais e poderá ser acusado de imobilismo. Mas também é certo que quem ganha com a sensatez dos políticos é a Educação.




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