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Professores a mais?

Pouco a pouco, com o passar dos anos, o analfabetismo hoje existente em Portugal,extinguir-se-á. Resolverá a morte aquilo que os vivos não souberam resolver

N/D
20 Set 2004

Portugal continua a ser o país com maior número de analfabetos da União Europeia.

Dito assim, sem mais nada, pode chocar pela violência da realidade. Para nós é côdea dura de pão recesso.

Diz o Estudo que o analfabetismo coloca o nosso país no último lugar entre os nossos parceiros comunitários. Por outro lado são aos milhares os licenciados, principalmente professores, que estão sem emprego e mesmo outros doutores e engenheiros não encontram emprego compatível com as suas habilitações.

Há aqui um desfasamento, um fosso e um desencontro mais que evidente. Se Portugal fosse analisado pelo número dos licenciados desempregados certamente seria um dos países da Europa mais desenvolvidos. Assim visto pela lupa dos que com mais de 65 anos não sabem ler, nem escrever, toca-nos o fim da fila. Os desta faixa etária não afectam mas entram nas percentagens que nos envergonham; são a expressão de um passado que a inexistência de escolaridade obrigatória deixou definitivamente para trás.

As campanhas de alfabetização, que há muitas décadas se fizeram, não foram suficientes para erradicar o analfabetismo. Não podemos, pois, entender este Estudo como índice de apreciação de desenvolvimento do nosso país e nem sequer entendemos como não sai ninguém a terreiro para dizer a verdade aos que nos malquistam. Já o mesmo se não passa com o abandono precoce da escolaridade.

Aqui o problema é mais grave, porque implica que se estude não as consequências mas sim as causas. O sistema escolar tem muito que se reformular se quiser reconverter este abandono em procura. Os alunos vêem na escola não um lugar de prazer mas um lugar de tortura.

Esta é a realidade e temos que modificar a escola e não falar de alunos que não existem… Olhemos com algum cuidado para os programas, depois para os manuais e, a seguir, perguntemos por que razão nos admiramos de não haver motivação nos alunos? Quem pode motivar-se perante tanta aridez, perante tanta definição, tanto distanciamento das coisas da vida? Este abandono deve-se, senão no todo, alguma coisa em parte, ao descrédito da utilidade daquilo que a escola ensina. Quando os alunos verificam que o que lhes é exigido não serve para nada, não é real, tornam-se avessos ao conhecimento.

A terra é árida, baldado será o esforço do semeador. Mas se o ensino viesse de fora para dentro, da horta para a sala de biologia, da oficina para o cálculo matemático, do conflito armado para a geografia, da história local para a nacional e desta para a universal, etc., etc., talvez pudéssemos inverter ou atenuar o declive.

Regresso de filhos pródigos? Como seria bom matar o borrego mais gordo! Para isso seriam precisos mais professores. É verdade. Mas a educação tem de ser olhada como um bem que produz outro bem maior. É a mãe do desenvolvimento. Mas ainda há mais: parece-nos que há muita gente interessada em voltar aos bancos da escola para estarem com os do seu tempo.

Este desejo é também uma resposta à necessidade de acompanhamento dos filhos. As pessoas gostam de estar com os filhos que estudam, ajudá-los nos seus trabalhos, ombrear com eles na resolução das dificuldades e compartilharem a alegria da superação.

Quanto ao analfabetismo, pouco a pouco, com o passar dos anos, o analfabetismo hoje existente em Portugal, extinguir-se-á. Resolverá a morte aquilo que os vivos não souberam resolver. Falta, assim, uma política de educação permanente. O que se aprende depressa, depressa se esquece. Não há professores a mais, o que há é política educativa a menos.




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