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O rei vai nu

As pessoas da minha geração e das gerações mais próximas, antes e depois da minha, talvez se recordem de uma história incluída num dos manuais de leitura da Instrução Primária de então.

N/D
20 Set 2004

A par do pitoresco da situação apresentada, encerrava ela uma lição que me parece adequada aos tempos actuais no que respeita à qualidade (?) do que se vai publicando e à falta de uma crítica de fundo, séria e honesta.

Não resisto à tentação de contar a história, em síntese.

Era um Rei muito vaidoso que um dia decidiu mandar vir do estrangeiro um alfaiate que se propunha fazer-lhe uma veste tão original, que só as pessoas inteligentes teriam a capacidade de a ver. Isto é, para aqueles que não tinham sido bafejados com o dote da inteligência, o tecido a fabricar pelo próprio alfaiate era invisível.

Rodeado dos seus auxiliares, instalou-se o genial alfaiate na corte, com o seu tear e todas as ferramentas próprias do ofício, dedicando-se durante longo período de tempo ao fabrico do invulgar tecido de que a veste real iria ser feita.

Escusado será dizer que todas as despesas decorrentes da estadia do alfaiate e seus colaboradores, na corte, eram custeadas pelo monarca.

Chegado o dia do anunciado cortejo em que o Rei tomou parte ostentando o seu novo traje real, todos aplaudiram entusiasticamente mesmo não conseguindo “enxergar” o seu vestuário, pois ninguém queria ser tido como estúpido.

Durante algum tempo as palmas ecoaram à passagem do Rei, até que uma criança surpreendida com o que viu, gritou de espanto: O Rei vai nu! O Rei vai nu! De imediato um coro de vozes a secundou, repetindo: O Rei vai nu! O Rei vai nu!

Só a criança inocente, despida de preconceitos, teve a coragem de gritar a verdade.

Vem isto a propósito dos desaforos que, de há uns anos a esta parte, a Poesia tem vindo a sofrer; de tal modo maltratada, vilipendiada, que aparece já, cada vez com mais frequência, totalmente descaracterizada!

Por vezes chego a perguntar-me se haverá realmente cons- ciência daquilo que distingue a prosa da poesia e dos elementos que caracterizam esta última.

Bem, pensando melhor e usando de total franqueza para com os leitores, acho mesmo que prefiro não saber a resposta.

É certo que sempre houve escritores, poetas, pintores, músicos, uns melhores que outros; é certo que depois de Picasso e Salvador Dali, alguns pintores medíocres tentaram fazer-se passar por génios; é certo que, ao surgir uma nova corrente literária, a par dos poetas genuínos, sempre aparecem, o que eu me atreveria a chamar, os “sucedâneos”.

Actualmente, porém, parece-me que há uma tendência para ultrapassar os limites da mediocridade e, no que à Poesia respeita, já sem falar nos conteúdos desprovidos de sentido de certa pseudo-poesia, a ignorância das noções básicas de versificação, patente em algumas das manifestações poéticas que têm vindo a lume, atingiu tal despudor que, no estado de desilusão a que cheguei e à semelhança da criança da história atrás referida, me apetece gritar também: O Rei vai nu! O Rei vai nu!

Há quem escreva, com “febre”,
Não poesia, mas tretas…
Vende-se gato por lebre
No mercado dos poetas!!!




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