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Um ano lectivo perdido?

O que aconteceu aos professores é a aberração de um modelo de escola que alinha numa teoria economicista rude e insensível, em que as metas a atingir são avaliadas no binómio preço/aluno

N/D
17 Set 2004

O ano lectivo de 2004/2005 começou da pior maneira. Pela exposição excessiva de um problema de funcionalidade do próprio sistema; pelo impacte psicológico que causou em todos os agentes ligados à Educação e pela fragilidade de uma medida tomada em nome da inovação e das reformas. Reformas, quando bem programadas e bem executadas são bem-vindas, desejáveis e urgentes.
Desta vez, a situação problemática não foi causada pelo habitual rosário de dificuldades a que todos os anos assistimos no regresso às aulas. Ou seja, falta de instalações escolares e desportivas ou instalações degradadas, material escolar inexistente ou obsoleto, rede de transportes deficitária, horários desajustados, cantinas a não funcionar, etc. Agora atingiu, na sua plenitude, um dos principais agentes que trabalha no mundo ao ensino: os professores.

Este caso deveria servir, sobretudo, para reflectir com todo o cuidado naquilo que falhou. No meu ponto de vista, dever-se-ia mexer pouco no que vai funcionando mais ou menos bem, fazendo-se simplesmente correcções pontuais se necessário fosse para melhorar, facilitar e valorizar o acesso aos conteúdos administrativos por parte dos utilizadores do sistema, e dever-se-ia evitar as experiências, de qualquer índole, em cima da hora ou em cima do joelho.

Contudo, partilho a ideia de que esta barafunda dos concursos dos professores foi um caso verdadeiramente impensável de ter acontecido neste tempo e neste lugar. Foi um caso inaceitável e sistematicamente mal tratado. Foi demonstrativo da incapacidade de uma equipa que não soube solucionar o problema atempadamente. Foi, além de tudo, uma irresponsabilidade ter-se deixado o processo na mais completa confusão que se ia avolumando com o passar dos dias. Não houve discernimento de se degolar a situação logo à nascença.

O problema existe, é muito sério e pode deixar sequelas que poderão manifestar-se nos próximos anos em atitudes de alguma reserva mental e de intranquilidade por parte dos professores. Este caso depreciou a instituição educativa, porque pôs, efectivamente, em causa o início das aulas, provocou insegurança nos professores, o que poderá reverter-se em apatia, desconforto, revolta e alguma confusão nas escolas.

Os pais querem e exigem o melhor para os seus filhos. Querem escolas motivadas, activas e onde se ensine com qualidade. Os pais querem escolas estáveis, coesas, solidárias e onde os seus filhos se sintam bem. O que aconteceu aos professores é a aberração de um modelo de escola que alinha numa teoria economicista rude e insensível, em que as metas a atingir são avaliadas no binómio preço/aluno.

Não nos podemos dar ao luxo de criar problemas desnecessários num sector vital da dinâmica do país. Isto não é próprio de um membro da União Europeia. O nosso atraso cultural e educacional está bem representado neste “conflito artificial”.

Será que poder-se-á imputar responsabilidades a alguém por esta confusão nos concursos?

A resposta é óbvia e já foi dada com a demissão do XV Governo. Não havendo ministro, não há responsável. Não havendo responsável, tudo fica como dantes. Como se nada tivesse acontecido. Tudo sereno e tratado à portuguesa. Com naturalidade e descontracção. Com respostas evasivas e com propósitos remendados. Por isso, não há culpados. E, se culpa houvesse, era simplesmente do sistema.

Este não é, contudo, e no meu ponto de vista, o momento de se pedir ou exigir responsabilidades ou averiguar o que falhou em todo este processo. Como o tempo urge, é preciso que se dê uma solução adequada ao problema, de forma que o ano lectivo se inicie e se desenrole com naturalidade, dentro das datas estabelecidas, ou próximas, que se tranquilize os professores, pais e alunos e que sirva de lição para o futuro.

Com um sistema de ensino sólido e forte resiste-se melhor às decisões dúbias ou erradas de quem coordena. Já era tempo dos serviços do Ministério da Educação terem os mecanismos necessários, como o banco de dados de todos os docentes, de modo que os concursos fossem bem mais simples, céleres e pouco sujeitos a falhas, evitando-se assim este “espectáculo” que em nada dignifica a escola e o professor.

A Educação em Portugal, já por si frágil, pouco sustentada e com índices elevados de insucesso escolar, não pode continuar a cometer erros deste tipo, ingénuos, incompreensíveis e intoleráveis, que simplesmente absorvem enormes quantias em dinheiro desnecessariamente, perturbam o bom funcionamento do sistema e contribuem para denegrir uma imagem de um sector social que se queria sereno, actuante e eficaz.

Todos sabemos que só com uma aposta séria, bem pensada e bem orientada na Educação, é que o país caminha para o desenvolvimento que tanto desejamos.

Os nossos governantes vão ter que dar o exemplo de competência, de seriedade, de poder de decisão e de sensatez. Se assim for, este ano lectivo nem estará perdido, nem tão-pouco ferido para bem de todos e do país.




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