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Três choques que abalam o mundo

Há três tendências desenhadas que vão revolucionar o mundo que criámos e em que vivemos: o choque entre gerações, o choque energético e a revolução no mundo laboral. Bem-vindos ao estranho mundo do futuro.

N/D
16 Set 2004

1. O choque geracional

A população ocidental está a envelhecer rapidamente. Em vez do admirável mundo novo de Aldous Huxley, caminhamos para o admirável mundo dos velhos. E apesar das previsões mostrarem que dentro de 50 anos haverá mais velhos que crianças no mundo, estamos longe de ter encontrado uma forma de lidar com esta nova realidade.

Excluímos os velhos do mercado laboral. Tratamo-los como um estorvo. Escondemo-los em lares. Não acreditamos que cada velho que morre é uma biblioteca que arde. A juventude é exaltada como um valor em si mesmo, a publicidade é orientada para ela, a esmagadora maioria dos produtos também.

Acontece que a actual geração de velhos foi responsável pelo “boom” económico e populacional dos últimos 50 anos nos Estados Unidos (onde detém 70 por cento do poder de compra) e na Europa. Teve filhos que tiveram melhor preparação académica e acederam a melhores cargos profissionais. Mas esses filhos optaram muitas vezes pela carreira em detrimento de ter filhos.

E, assim, o choque geracional do futuro será entre os cada vez menos que suportarão os sistemas de segurança social pública e os cada vez mais que deles beneficiam – mas também, como nota o filósofo alemão Frank Schirrmacher, autor de O Complôt Matusalém, entre os reformados que tiveram filhos e os que optaram por não ter, não contribuindo para repor o “stock” populacional, necessário ao equilíbrio dos sistemas de previdência.

Em 2000, 41 milhões de alemães tinham menos de 40 anos e 41 milhões mais. Em 2020, não só a população alemã se reduz para menos de 80 milhões, como 40 milhões terão mais de 48 anos. E enquanto em 2000 a Alemanha era o 12.º país mais populoso do mundo, em 2020 cai para a 19.ª posição, sendo ultrapassado por Vietname, Irão, Egipto e Turquia.

Em Portugal, cinco milhões de habitantes tinham menos de 37 anos em 2000 e os outros cinco mais; em 2020, metade da população terá mais de 44 anos. Enquanto em 1974 havia 17 contribuintes activos para cada reformado, essa relação é agora de dois para um. Aumentar a idade da reforma das mulheres, rever em baixa a fórmula de cálculo das pensões, estabelecer um limite ao valor a receber, introduzir o sistema dos três pilares tem sido o caminho seguido para evitar a implosão do sistema.

Mas que ninguém se engane: estamos sentados em cima de uma bomba-relógio, e a saúde e a segurança social absorverão cada vez maiores recursos públicos. Os activos recusam-se a pagar mais, os reformados que lhes cortem direitos adquiridos. A guerra intergeracional é inevitável.

2. O choque energético

Mesmo que o preço do barril de crude tenha descido nos últimos dias, os especialistas são unânimes: o ciclo do petróleo barato chegou ao fim […]. O que daqui resulta é que a nossa vida em sociedade, baseada em grande parte na utilização irracional de energia, vai também entrar numa nova era. Em primeiro lugar, vai haver uma revolução no parque automóvel, responsável por 90 por cento da factura petrolífera em Portugal.

Haverá um novo estímulo à utilização dos transportes públicos, porque serão crescentes as restrições ao uso do transporte privado. Os carros movidos a biodiesel, híbridos (com motor convencional e eléctrico), a hidrogénio ou a álcool farão a sua entrada em força no mercado.

Para os consumidores particulares, um novo critério passará a ter um peso decisivo nas opções de compra. Os aparelhos domésticos serão escolhidos mais pela energia que gastam do que por outras razões – e a poupança de energia começará a ser parte integrante da cultura das empresas e dos lares.

O lado bom deste problema é que Portugal apresenta um enorme potencial para o crescimento das energias renováveis, nomeadamente a eólica. Mas também a utilização de painéis solares, para aquecimento de água ou para produção de electricidade, tem espaço para crescer. Outras formas de energia encontradas nos oceanos serão alvo de investigação.

Portugal produz apenas 1688 milhões de TCE (toneladas equivalentes de petróleo), para um consumo total de 25.345 milhões de TCE. E este diferencial só se cobre confortavelmente com petróleo importado quando o barril anda consistentemente entre 25 e 30 dólares. Acima disto, não só vale a pena apostar nas energias renováveis, como, felizmente, vamos ser obrigados a fazê-lo.

3. O choque laboral

Primeiro foi a Alemanha, depois a França. Em Berlim existe um Governo social-democrata, em Paris um Governo de centro-direita. Mas as duas potências que constituem o motor da integração europeia resolveram abrir o debate sobre o regresso à semana laboral de 40 horas, o que quer dizer que, mais dia menos dia, toda a Europa estará a discutir este modelo.

Não nos iludamos, pois. Após décadas e décadas de conquistas laborais, os direitos dos trabalhadores europeus vão entrar em regressão. O dilema que se lhes coloca é o de escolher entre empregos, por um lado, ou aumentos salariais e direitos laborais, por outro. A ameaça é que, se não cederem, o patronato deslocalizará a produção para países asiáticos, que trabalham com uma mão-de-obra dócil, jornadas diárias que chegam às 12 horas, onde o sindicalismo não existe e os direitos laborais são tábua rasa.

O jornal francês Libération afirmava recentemente ser este «o Verão do ATT» (aumento do tempo de trabalho). Mas não é só isto que está em causa. É o número de dias de férias que será reduzido. É o congelamento salarial que poderá ser utilizado.

É a tendência para não pagar horas extraordinárias. No comércio, é a liberalização dos horários de funcionamento, seguindo o modelo de Nova Iorque, a cidade que nunca dorme e onde há sempre uma loja ou um restaurante abertos. E não faltará muito para também serem equacionados cortes no subsídio de Natal e no subsídio de férias.

Os empregos instáveis, precários, associados à realização de eventos como a Expo98 ou o Euro2004 vão ganhar um peso crescente. A escolha entre desemprego estável e emprego instável vai ser um dilema cada vez mais premente para os trabalhadores – e vai obrigar-nos a reequacionar o nosso relacionamento com o empregador. Em última instância, esta revolução pode levar muitas pessoas a arriscar na criação do seu próprio negócio.

Uma coisa é certa: o emprego para toda a vida acabou. E mesmo uma profissão para sempre também ficou com os dias contados. Flexibilidade e polivalência é o que se exige aos bons trabalhadores do futuro. E não adianta travar o vento com as mãos. A globalização vai impor estas soluções laborais.




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