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Conversas com Jornalistas

No mês de Agosto, sobretudo na primeira quinzena, foi presença quase diária na Comunicação Social a história das cassetes que um jornalista do “Correio da Manhã” tinha guardadas na sua secretária, com conversas relacionadas com o processo Casa Pia. Jornalisticamente, duas interrogações se me colocaram: é legítimo que o jornalista grave as conversas que tem com as suas fontes? O jornalista deve ou não guardar segredo quanto à identificação das fontes?

N/D
16 Set 2004

É sobre elas, e apenas sobre elas, que vou emitir a minha opinião.
Não vejo inconveniente nenhum em que o jornalista grave as declarações que lhe prestam.

O jornalista é, acima de tudo, o homem da informação. Para informar tem de estar informado. Para estar informado ouve o depoimento de pessoas que conhecem a realidade dos factos.

Na recolha desses testemunhos, que mal há se, em vez de tomar notas no bloco de apontamentos ou as fixar na memória, gravar as declarações que lhe fazem?

Claro que, para quem faz as declarações, a ausência de gravação pode ser uma defesa. Mais tarde, vindo a público informações que lhe são atribuídas, pode dizer que as não fez ou que o jornalista não entendeu bem o que se lhe disse.

Tem havido casos de pessoas com responsabilidade virem a público declarar que não disseram o que realmente tinham dito. E o jornalista que as publicou apenas tem como prova os próprios apontamentos ou a própria memória. Mas havendo a gravação, a situação é diferente.

Não têm reparado como, por diversas vezes, individualidades têm sido confrontadas com a gravação de declarações anteriormente produzidas, quer na rádio quer na televisão, para mostrar que hoje dizem uma coisa e tempos atrás sustentavam opinião diferente?

A existência da gravação contribui para que o jornalista possa informar com mais rigor e inclusive fazer citações textuais do que lhe foi dito.

Lembrei que o jornalista é, fundamentalmente, o homem da informação. Quem conversa com um jornalista, na qualidade de jornalista, deve admitir a possibilidade de as suas declarações virem a público. Não foi para isso que o jornalista o quis ouvir?

Porque o jornalista é o homem da informação, o homem que desvenda segredos, o homem que procura trazer a público coisas de interesse comum que permaneciam ocultas, não me parece muito lógico que se solicite ao jornalista que guarde segredo de informações que se lhe prestam.

Mas então – perguntar-se-á – o jornalista não é capaz de guardar um segredo?

O jornalista, como cidadão, é. E a prática quotidiana o demonstra à saciedade. Mas quando tal cidadão é jornalista e se encontra no desempenho dessa missão, naturalmente que traz a público o que lhe revelaram. E quem lho disse não tem nada que levar a mal.

Uma coisa, porém, é a divulgação das declarações, e outra, a identificação de quem as produziu. Encontramo-nos perante o segredo das fontes de informação, que em casos concretos se justifica perfeitamente e deve ser respeitado.

Em princípio, penso que o jornalista deve dar a conhecer as fontes de informação. Até por uma questão de qualidade do serviço que presta. Quando há uma greve, por exemplo, o jornalista serve melhor o leitor se, além de lhe fornecer números, indicar a fonte onde os recolheu.

Uma coisa é dizer, pura e simplesmente, que a adesão foi de 80 por cento; outra, acrescentar que quem disponibilizou estes números foi alguém ligado aos sindicatos; e outra, que a origem da informação esteve em alguém relacionado com a entidade patronal.

Há, todavia, circunstâncias em que se justifica perfeitamente que o jornalista divulgue a informação omitindo a identidade da fonte onde a recolheu. Para evitar represálias que podem ser exercidas sobre quem a forneceu. Para evitar que a fonte sofra por causa das declarações que prestou. Para que quem pode informar devidamente o jornalista e, através deste, a opinião pública, o faça sem qualquer receio.

Há pessoas que só informam se têm a garantia de que não é revelada a sua identidade, e as suas declarações podem ser necessárias para que a opinião pública seja devidamente informada, para que venham a público assuntos que o bem comum exige sejam revelados mas interesses particulares teimam em manter ocultos, para que assuntos de interesse comum sejam devidamente esclarecidos.

Em circunstâncias destas, o jornalista há-de guardar segredo das fontes de informação e deve ser-lhe respeitado o direito de o poder fazer.




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